quarta-feira, 31 de março de 2021

Arquétipos na construção de personagens

Foto: Blessed & Highely Favored

Olá escritores!


Você já ouviu falar de dos Arquétipos? Ainda que essa palavra não soe familiar para você, ela é algo recorrente no seu cotidiano, e principalmente no momento de dar vida aos personagens da sua história. Hoje daremos início a uma série de postagens que irá abordar os Arquétipos apresentados no livro “A Jornada do Escritor: Estrutura Mítica para Escritores”, de Christopher Vogler.  Animados para embargar nessa jornada!? 


Antes de nos aventuramos pelos Arquétipos, precisamos primeiramente entender o que eles significam.


O psicólogo suíço Carl G. Jung com base no estudo de símbolos e mitos originárias de diferentes culturas e eras, traçou moldes e padrões de comportamentos que definem formas específicas de ser e estar em sociedade. Ele sugeriu a existência de um inconsciente coletivo, semelhante ao inconsciente pessoal. Os contos de fadas e os mitos seriam como os sonhos de uma cultura inteira, brotando desse inconsciente coletivo. 


Em resumo Jung empregou o termo arquétipos para designar antigos padrões de personalidade que são uma herança compartilhada por toda a raça humana.


O conceito de arquétipo é uma ferramenta imprescindível para se compreender o propósito ou função dos personagens em uma história. Se você descobrir qual a função do arquétipo que um determinado personagem está expressando, isso pode lhe ajudar a guiar o desenvolvimento dele na história.  Os arquétipos fazem parte da linguagem universal da narrativa. Dominar sua energia é tão essencial ao escritor como respirar, segundo Vogler.

 



Arquétipos como funções


Quando você enxerga os arquétipos como personagem como funções flexíveis para se obter certos resultados na história e não como figuras imutáveis, é possível liberar a narrativa e criar uma história cheia de nuances e muito mais interessante para o leitor.   


Ter em mente essa possibilidade de flexibilidade, explica como um personagem pode manifestar dentro da mesma história características de mais de um arquétipo.


Outra maneira de encarar os arquétipos clássicos, de acordo com Vogler é vê-los como facetas da personalidade do herói (ou do escritor). Os outros personagens representam possibilidades para o herói — boas ou más. Às vezes um herói ao longo de sua jornada segue reunindo e incorporando a energia e os traços de outros personagens. É como se o herói começasse a história incompleto e ao longo da história cada personagem que cruza seu caminho tem como função ensinar algo para que ao final ele se torne um ser humano completo. 


Os arquétipos também podem ser vistos como símbolos personificados das várias qualidades humanas. Como as cartas dos arcanos maiores do taro, que representam os diferentes aspectos da personalidade humana completa.

 


Os arquétipos como emanações do Herói



Os arquétipos mais comuns e mais úteis


Para quem conta histórias, certos arquétipos são uma espécie de ferramenta indispensável ao ofício. Não é possível contar histórias sem eles. Os arquétipos que ocorrem com mais frequência nas histórias (logo, os mais úteis para que um escritor conheça) são:


  •         HERÓI
  •         MENTOR (VELHA OU VELHO SÁBIO)
  •         GUARDIÃO DE LIMIAR
  •         ARAUTO
  •         CAMALEÃO
  •         SOMBRA
  •         PÍCARO

 

É evidente que existem muitos outros arquétipos — tantos quantas são as qualidades humanas que podem ser dramatizadas numa história. Os contos de fadas estão repletos de figuras arquetípicas: o Lobo, o Caçador, a Mãe Boa, a Madrasta Má, a Fada-Madrinha, a Bruxa, o Príncipe ou Princesa, o Estalajadeiro Cobiçoso e assim por diante, que desempenham funções altamente especializadas. Jung e outros identificaram muitos arquétipos psicológicos, como o Puer Aeternus, ou o eterno menino, que pode ser encontrado em mitos como o do sempre-jovem Cupido, em histórias de personagens como a de Peter Pan, e na vida, como homens que nunca querem crescer.


 

Duas perguntas ajudam um escritor a identificar a natureza de um arquétipo:

    1.  Que função psicológica, ou que parte da personalidade ele representa?
    2.  Qual sua função dramática na história?


Lembre-se dessas perguntas enquanto conhecemos um pouco mais sobre os sete arquétipos básicos, as pessoas e energias que provavelmente vamos encontrar na Jornada do Herói. Caso você não conheça a Jornada do Herói ou queira recordar confira nossa postagem sobre o assunto aqui.

 

Herói

 

A palavra herói vem do grego, de uma raiz que significa "proteger e servir". Um Herói é alguém que está disposto a sacrificar suas próprias necessidades em benefício dos outros. A raiz da ideia de Herói está ligada a um sacrifício de si mesmo.  A palavra herói é usada para designar um personagem central ou protagonista, independente do seu gênero.

 

Função psicológica: Em termos psicológicos, o arquétipo do Herói representa o que Freud chamou de ego — a parte da personalidade que se separa da mãe, que se considera distinta do resto da raça humana. A jornada de muitos Heróis é a história dessa separação da família ou da tribo, equivalente ao sentido de separação da mãe, que uma criança vivência. O arquétipo do Herói representa a busca de identidade e totalidade do ego.

 

Função dramática: Identificação com o leitor. Os Heróis devem ter qualidades, emoções e motivações universais, que todo mundo já tenha experimentado uma vez ou outra na vida: vingança, raiva, desejo, competição, territorialidade, patriotismo, idealismo, cinismo ou desespero. Mas os Heróis também precisam ser seres humanos únicos, e não criaturas estereotipadas e previsíveis. Eles precisam, ao mesmo tempo, de universalidade e originalidade.

Um personagem real, como uma pessoa real, não é apenas um traço, mas uma combinação única de muitas qualidades e defeitos, alguns deles muitas vezes conflitantes. E quanto mais conflitantes, melhor. Um personagem dilacerado por forças opostas, que o puxam em sentidos contrários para o amor e o dever, já nasce interessante para o leitor. Um personagem que tenha uma combinação única de impulsos contraditórios, como confiança e suspeita, ou esperança e desespero, parece mais realista e humano do que outro que apresente apenas um traço de caráter. Um Herói bem construído pode ser decidido, distraído, encantador, irônico, forte de corpo, mas fraco de coração, tudo ao mesmo tempo. É a combinação especial de características como essas que dá ao leitor a noção de que o Herói é uma pessoa real, e não um tipo.


Outras funções do Herói na história: 


Crescimento: O Herói na história também tem como função aprender ou crescer. Algumas vezes é difícil reconhecer quem é o personagem principal — ou quem ele deveria ser. Muitas vezes, a melhor resposta é: aquele que aprende ou cresce mais no decorrer da história. Os heróis superam obstáculos e conquistam metas, mas também adquirem novos conhecimentos. O ponto central de muitas histórias é a aprendizagem que ocorre entre um Herói e um mentor, um Herói e um amante, e até mesmo entre um Herói e um vilão.


Ação: Outra função heroica é agir ou fazer. O Herói, geralmente, é a pessoa mais ativa da história. Sua vontade, seu desejo, é que impulsionam as histórias para a frente. O Herói é quem deve realizar a ação decisiva da história, a ação que exige maior risco ou responsabilidade.


Sacrifício: A capacidade de sacrifício é a verdadeira marca do Herói, coragem ou força são qualidades secundárias.  


Lidando com a morte: No âmago de toda história existe um confronto com a morte. Se o Herói não enfrenta uma morte real, então há uma ameaça de morte (real ou simbólica), sob a forma de um jogo de alto risco, um caso de amor, ou uma aventura, em que ele pode ganhar (viver) ou perder (morrer). Os Heróis nos ensinam a lidar com a morte. Eles podem sobreviver, provando que a morte não é tão dura. Podem morrer (ainda que simbolicamente) e renascer, provando que ela pode ser transcendida. Podem morrer uma morte de Herói, quando transcendem a morte, ao oferecer suas vidas por uma causa, um ideal, um grupo.

 

Heroísmo em outros arquétipos

 

O arquétipo do Herói não se manifesta apenas no personagem principal, ele pode também se manifestar em outros personagens, quando agem heroicamente. Por exemplo, um personagem sem características heroicas que se sacrifica num momento crucial da história, em benefício dos amigos ou de um bem maior, ganhando assim o direito de ser chamado de Herói.




Isso pode funcionar muito bem quando se tem um vilão ou antagonista que, inesperadamente, manifesta qualidades heroicas.

 

Defeitos nos personagens

 

Defeitos interessantes humanizam um personagem. Podemos reconhecer pedaços de nós mesmos num Herói desafiado a ultrapassar dúvidas internas, erros de pensamento, culpa ou trauma no passado, ou medo do futuro. Fraquezas, imperfeições, cacoetes e vícios imediatamente tornam um Herói ou qualquer personagem mais real e atraente. Parece que quanto mais os personagens forem neuróticos, mais as plateias gostam deles e se identificam com eles.



Os defeitos também dão ao personagem um caminho a percorrer — o chamado "arco do personagem", em que ele se desenvolve da condição A para a condição Z, numa série de etapas. Os defeitos são um ponto de partida, feito de imperfeição e de algo a completar, a partir do qual o personagem pode crescer.

 

Tipos de Herói

 

Há Heróis de vários tipos, incluindo os que querem e não querem ser Heróis, os solitários e os solidários, os Anti-heróis, os Heróis trágicos e os catalisadores. Como todos os outros arquétipos, o conceito de Herói é muito flexível, e pode expressar muitos tipos diferentes de energia. Os Heróis podem se combinar com outros arquétipos e produzir híbridos, como o Herói Picaresco, ou podem vestir, provisoriamente, a máscara de outro arquétipo, e assim transformar-se um Camaleão, Mentor ou em outros — até mesmo numa Sombra.




Embora, geralmente, seja pintado como uma figura positiva, o Herói também pode expressar lados escuros ou negativos do ego. O arquétipo do Herói geralmente representa o espírito humano numa ação positiva, mas também pode mostrar as consequências da fraqueza ou a relutância em agir.

 

A disposição do Herói

 

De acordo com Vogler, existem dois tipos de Heróis:

 

1. Os decididos, ativos, loucos por aventuras, que não têm dúvidas, do tipo sempre-em-frente, automotivados.

2. Os pouco dispostos, cheios de dúvidas e hesitações, passivos, que precisam ser motivados ou empurrados por forças externas para se lançarem numa aventura.

 

Os dois tipos são capazes de garantir histórias muito divertidas, embora um herói mais passivo no decorrer de toda a narrativa possa ser responsável por uma experiência dramática sem muito envolvimento. Geralmente, é melhor que um Herói pouco disposto mude em algum ponto da história, e se torne ligado à aventura depois que lhe é fornecida alguma motivação necessária.

 

Anti-heróis

 

O termo "anti-herói" pode levar ao erro, uma vez que ele não significar o oposto de um Herói, mas um tipo especial de Herói. Ele pode ser alguém considerado do ponto de vista da sociedade como um marginal ou um vilão, mas com quem a plateia se solidariza, basicamente. Os Anti-heróis podem ser de dois tipos:

 

1. Personagens que se comportam de modo muito semelhante aos Heróis convencionais, mas a quem é dado um toque muito forte de cinismo, ou uma ferida qualquer.


O Anti-herói ferido pode ser um cavaleiro heroico numa armadura enferrujada, um solitário que rejeitou a sociedade ou foi rejeitado por ela. Esses personagens podem acabar vencendo, e podem ter, o tempo todo, a solidariedade total da plateia, mas aos olhos da sociedade são fora-da-lei, como Robin Hood, Han Solo, de Star Wars.




Amamos esses personagens porque são rebeldes e torcem o nariz à sociedade, como gostaríamos de fazer.


2. Heróis trágicos, figuras centrais de uma história, que podem não ser admiráveis nem despertar amor, e cujas ações podemos até deplorar.


O segundo tipo de Anti-herói se aproxima mais da ideia clássica do herói trágico. São Heróis com defeitos, que nunca conseguem ultrapassar seus demônios íntimos, e são derrotados e destruídos por eles. Podem ser encantadores, alguns podem ter qualidades admiráveis, mas o defeito ganha no final. Alguns dos Anti-heróis trágicos não são tão admiráveis, mas observamos sua queda com fascínio, pois sentimos que "antes eles do que a gente".  Ex: Mulher-Gato, Deadpool, Justiceiro. 





Heróis voltados para o grupo

 

Outra distinção que deve ser feita a respeito dos Heróis leva em conta sua relação com a sociedade. Como os primeiros contadores de histórias, aqueles primeiros humanos que saíam caçando e recolhendo plantas nas planícies da África, a maioria dos heróis se orienta para o grupo. Ou seja, fazem parte de uma sociedade, no início da história, e sua jornada os leva para uma terra desconhecida, longe de casa. Quando os encontramos pela primeira vez, fazem parte de um clã, uma tribo, uma aldeia, uma cidade, uma família. Sua história conta a separação desse grupo (primeiro ato), sua aventura solitária num lugar remoto (segundo ato), e, muitas vezes, sua reintegração final com o grupo (terceiro ato).




Os Heróis orientados para o grupo muitas vezes enfrentam a escolha entre voltar ao Mundo Comum do primeiro ato ou ficar no Mundo Especial do segundo ato. Na cultura ocidental, são raros os Heróis que decidem ficar no Mundo Especial, mas eles são bastante comuns nos contos clássicos da Ásia ou em narrativas indígenas.

 

Heróis solitários

 

Com esse tipo de Herói, a história começa com seu afastamento da sociedade. Seu ambiente natural é a natureza selvagem, seu estado natural é a solidão. Sua jornada é de retorno ao grupo (primeiro ato), aventura dentro do grupo, no ambiente normal do grupo (segundo ato), e retorno ao isolamento na natureza (terceiro ato). Para esses, o Mundo Especial do segundo ato é a tribo ou a aldeia, que visitam brevemente, mas na qual não se sentem à vontade



Da mesma forma que ocorre com os Heróis orientados para o grupo, esses heróis solitários têm a escolha final de retornar a seu estado inicial (no caso, solidão) ou de permanecer no Mundo Especial do segundo ato. Alguns Heróis começam como solitários e terminam como Heróis ligados ao grupo, e optam por ficar em sociedade.

 

Heróis catalisadores

 

Os Heróis catalisadores, são figuras centrais que podem agir heroicamente, mas que não mudam muito ao longo da narrativa como se é esperado que aconteça na jornada do protagonista. Isso acontece porque sua função principal é provocar transformações nos outros, e não em si mesmo.

 


Os heróis catalisadores são especialmente úteis para seriados. Como o Cavaleiro Solitário ou o Super-Homem, esses Heróis sofrem poucas mudanças internas, mas agem primordialmente no sentido de ajudar ou guiar os outros em seu crescimento. É claro que é uma boa ideia, de vez em quando, dar até mesmo a esses personagens alguns momentos de crescimento e mudança, a fim de que eles não cansem nem percam a credibilidade.

 

O caminho dos heróis

 

Os Heróis são símbolos da alma em transformação, e da jornada que cada pessoa percorre na vida. Os estágios dessa progressão, os estágios naturais da vida e do crescimento, formam a Jornada do Herói. O arquétipo do Herói é um campo rico para ser explorado por escritores.

 


Esperamos que você tenha gostando de saber um pouco mais sobre o Arquétipo do Herói. Na próxima postagem sobre esse assunto iremos conhecer mais sobre o Arquétipo do Mentor (Velha ou Velho Sábio).  Agora nos conte você costuma usar os Arquétipos como base para a criação de seus personagens? 




Nenhum comentário:

Postar um comentário

Seja bem-vindo ao Projeto Escrita Criativa!
Deixe o seu comentário e interaja conosco. ;)

Follow Us @soratemplates