A formação de novos leitores começa ainda na infância, quando as histórias despertam a imaginação, ampliam o vocabulário e ajudam as crianças a compreender o mundo e a si mesmas. Mais do que entreter, a literatura infantil contribui para o desenvolvimento emocional, social e intelectual dos pequenos.
Por isso, escrever para crianças é uma tarefa que exige sensibilidade, criatividade e responsabilidade. É preciso compreender as particularidades da infância para que dessa forma seja possível construir uma boa história que tenha um impacto positivo nos jovens leitores. Na postagem "Aprenda a escolher/escrever livros para crianças e adolescentes", nós aprofundamos um pouco mais sobre o assunto.
Acreditamos que uma das melhores maneiras de desenvolver essas habilidades é conhecer e estudar a obra de autores que marcaram a literatura infantil brasileira. Suas trajetórias e escolhas narrativas oferecem lições valiosas para quem deseja escrever para esse público.
A seguir, reunimos sete grandes nomes da literatura infantil e infantojuvenil brasileira e destacamos alguns ensinamentos que podemos aprender com suas obras para aprimorar a escrita destinada às crianças.

1. Ruth Rocha: a linguagem coloquial e bem-humorada
Ruth Rocha é uma das vozes mais influentes da literatura
infantil brasileira. Com mais de cinco décadas dedicadas à escrita para
crianças, a autora publicou mais de 200 títulos, traduzidos para 25 idiomas.
Ao longo de sua trajetória, recebeu importantes
reconhecimentos, entre eles oito Prêmios Jabuti, além de premiações da Academia
Brasileira de Letras, da Associação Paulista dos Críticos de Arte e da Fundação
Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ). Em 2008, foi eleita membro da
Academia Paulista de Letras.
O que aprender com ela: Ruth domina a arte de
incorporar a linguagem cotidiana das crianças à literatura. Seus textos
estimulam os pequenos a questionar o mundo e a si mesmos, ao mesmo tempo que
convidam os adultos a ouvir o que as crianças dizem — e o que tentam expressar.
Em Marcelo, Marmelo, Martelo, por exemplo, a autora
explora a curiosidade infantil em relação aos nomes das coisas e o desejo de
reinventar a língua. Já em O Reizinho Mandão, aborda temas como o
autoritarismo, o abuso de poder e a importância de ouvir os outros, mostrando
que questões complexas podem ser discutidas com leveza e humor.
Sugestão de exercício: Explore o ritmo, a espontaneidade e
a fluidez da fala cotidiana. A narrativa infantil ganha força quando se
aproxima da maneira como as crianças pensam, fazem perguntas e se expressam no
dia a dia. Mais do que simplificar a linguagem, o desafio é encontrar uma voz
narrativa que dialogue verdadeiramente com o leitor infantil.
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2. Ana Maria Machado: a valorização da diversidade e da tradição oral
Ana Maria Machado é uma das mais importantes escritoras brasileiras e a primeira autora de literatura infantil a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras, instituição que presidiu em 2012 e 2013.
Sua produção literária é diversificada e inclui romances, contos, ensaios e dezenas de títulos infantojuvenis. Suas obras foram traduzidas para 23 idiomas e publicadas em 31 países. Entre seus livros mais conhecidos estão Menina Bonita do Laço de Fita e Bento que Bento é o Frade.
Ao longo da carreira, recebeu diversos prêmios, entre eles três Prêmios Jabuti. Em 1977, conquistou o Prêmio João de Barro com o livro História Meio ao Contrário. Em 1993, tornou-se hors-concours da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ), reconhecimento concedido a autores que já se destacaram reiteradamente na premiação.
O que aprender com ela: Ana Maria resgata elementos do folclore, das cantigas e da tradição oral brasileira, combinando-os com temas contemporâneos, como autoestima, respeito às diferenças raciais e empatia. Suas histórias mostram como referências culturais familiares podem ganhar novos significados quando trabalhadas com criatividade e sensibilidade.
Sugestão de exercício: Beba na fonte das histórias populares, das cantigas e da nossa herança cultural. A sonoridade, a repetição e os jogos de palavras enriquecem a narrativa, facilitam a interação com o texto e ajudam a criar histórias que ressoam tanto com as crianças quanto com os adultos que leem para elas.
3. Sonia Rosa: a beleza do cotidiano
Pedagoga e escritora, Sonia Rosa é uma das autoras que contribuem para a valorização da literatura infantil afro-brasileira. Sua produção aborda as relações familiares, as memórias, a ancestralidade e as experiências cotidianas, trazendo para o centro das narrativas personagens e vivências que merecem maior espaço na literatura destinada às crianças.
Entre suas obras estão O Menino Nito, Os Tesouros de Monifa e Quando a Escrava Esperança Garcia Escreveu uma Carta.
O que aprender com ela: Sonia destaca a importância de retratar a infância a partir de gestos simples, vínculos familiares e experiências que carregam significados afetivos. Suas histórias também contribuem para preservar e valorizar memórias e histórias negras, abordando esses elementos com sensibilidade.
Sugestão de exercício: Encontre a poesia na simplicidade. Nem toda história infantil precisa partir de grandes aventuras ou acontecimentos extraordinários. Muitas vezes, são os pequenos gestos, as conversas em família e as descobertas cotidianas que revelam os sentimentos, os conflitos e os aprendizados mais importantes da infância.

4. Ziraldo: a força do humor, do afeto e da linguagem visual
Criador do inesquecível O Menino Maluquinho, Ziraldo marcou a literatura infantil brasileira ao explorar as possibilidades de integração entre texto, ilustração, cartum e linguagem dos quadrinhos. Além de produzir livros para crianças, também se destacou como cartunista, chargista e um dos nomes importantes da história dos quadrinhos brasileiros.
Suas obras combinam humor, crítica de costumes, aventuras e situações do cotidiano infantil, retratando a infância com espontaneidade, afeto e liberdade.
O que aprender com ele: Ziraldo compreendia que a infância é marcada por emoções intensas, imaginação, descobertas e uma boa dose de bagunça. Suas histórias demonstram como o humor e a empatia podem aproximar o leitor dos personagens e tornar a leitura uma experiência prazerosa.
Sua obra também evidencia a importância da relação entre texto e imagem. A disposição das palavras na página, o ritmo das cenas e o diálogo com as ilustrações contribuem para a construção da narrativa e para a experiência de leitura.
Sugestão de exercício: Pense na dimensão visual da história e na maneira como o humor pode enriquecer a narrativa. Ao escrever para crianças, procure construir cenas dinâmicas, expressivas e cheias de vida. Quando houver ilustrações, lembre-se de que elas não precisam apenas repetir o que está escrito: podem acrescentar informações, revelar emoções e ampliar os sentidos da história.
5. Kiusam de Oliveira: a celebração da ancestralidade e o fortalecimento da autoestima
Doutora em Educação e especialista em literatura afro-brasileira, Kiusam de Oliveira desenvolve uma produção literária voltada à valorização da identidade negra, da ancestralidade e da diversidade. Entre suas obras estão O Mundo no Black Power de Tayó, Omo-Oba: Histórias de Princesas e O Cabelo de Lelê, título que se tornou uma referência na abordagem da identidade e da valorização das características físicas das crianças negras.
O que aprender com ela: Kiusam mostra como a literatura pode contribuir para a construção de identidades positivas desde a infância. Suas narrativas valorizam a beleza, a história e a cultura afro-brasileiras, ajudando a combater preconceitos e a ampliar as referências com as quais as crianças constroem sua percepção de si mesmas e dos outros.
Sugestão de exercício: Utilize a literatura como espaço de representatividade e transformação. Crie protagonistas diversos, com histórias, culturas, características e experiências próprias. Permita que crianças de diferentes origens se reconheçam nas narrativas e encontrem personagens que as inspirem a valorizar quem são e a compreender a riqueza das diferenças.

6. Geni Guimarães: a força da memória, da poesia e da superação
Professora, poeta e romancista, Geni Guimarães é uma importante escritora brasileira cuja produção aborda a memória, a identidade negra e as experiências de infância. Sua obra A Cor da Ternura, vencedora do Prêmio Jabuti, é um marco da literatura brasileira e uma referência para a reflexão sobre as relações raciais e a formação da identidade.
O que aprender com ela: Geni Guimarães constrói narrativas em que a sensibilidade poética se une às lembranças e às descobertas da infância. Suas histórias abordam temas como racismo, vida no ambiente rural, relações familiares e construção da identidade, demonstrando como experiências pessoais podem ser o elemento chave para criar histórias autênticas e memoráveis.
Sugestão de exercício: As experiências vividas, as lembranças e os detalhes aparentemente insignificantes podem se transformar em matéria-prima para histórias profundas e envolventes. Ao trabalhar com memórias, procure ir além do relato dos acontecimentos: explore as emoções, os sentidos e as transformações que eles despertam.
7. Lygia Bojunga: a coragem de abordar emoções complexas
Lygia Bojunga foi a primeira autora latino-americana a receber o Prêmio Hans Christian Andersen, uma das mais importantes distinções internacionais da literatura infantil. É autora de obras marcantes, como A Bolsa Amarela e O Meu Amigo Pintor, nas quais explora a imaginação e o universo interior das crianças.
Com uma linguagem expressiva e narrativas que transitam entre a realidade e a fantasia, a escritora aborda questões sociais, familiares e emocionais, convidando os leitores a refletir sobre seus sentimentos, seus conflitos e suas relações com o mundo.
O que aprender com ela: Lygia Bojunga mostra que a literatura infantil pode abordar sentimentos complexos, como o desejo de autonomia, a solidão, o luto e o amadurecimento. Suas histórias reconhecem que as crianças também enfrentam conflitos internos e precisam de espaço para compreender o que sentem.
Ao recorrer à imaginação e a recursos narrativos criativos, a autora transforma questões difíceis em experiências literárias que permitem ao leitor refletir sobre si mesmo sem que a história precise oferecer respostas prontas.
Sugestão de exercício: Não tenha medo da densidade emocional. A infância não é feita apenas de momentos felizes e brincadeiras. Crianças também sentem medo, tristeza, insegurança e frustração. Abordar essas emoções com respeito, sensibilidade e uma linguagem adequada à faixa etária pode criar conexões profundas e duradouras entre o leitor e a história.
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As trajetórias desses escritores mostram que não existe uma única fórmula para criar uma boa história infantil. Cada autor desenvolveu uma maneira própria de compreender a infância e transformá-la em literatura.
Lembre-se: formar novos leitores começa com histórias que despertam o desejo de ler. E escrever para crianças é participar desse processo, oferecendo a elas narrativas que ampliem seus horizontes, fortaleçam sua identidade e as convidem a descobrir, desde cedo, o prazer e as possibilidades que só um bom livro pode oferecer.