Todos os anos fala-se muito sobre tendências. Mas, para quem cria — especialmente para quem escreve — elas não deveriam ser encaradas como regras rígidas ou previsões fechadas sobre o futuro. Tendências dizem menos sobre o que vai acontecer e mais sobre o que já está acontecendo.
Em 2026, elas funcionam como espelhos de estados emocionais coletivos: revelam cansaços acumulados, desejos ainda pouco formulados e movimentos de rejeição ao excesso de filtro, de perfeição, de neutralidade sem contexto. Ao mesmo tempo, apontam aquilo que as pessoas querem ver refletido nas histórias que consomem: mais verdade, mais profundidade, mais humanidade. Afinal toda tendência é uma reposta coletiva para uma pergunta maior.
Mais do que indicar “o que está em alta”, esta postagem propõe um convite à observação do agora e à transformação desse presente em narrativa, linguagem e imaginário. Porque tendências não são regras. São fontes de inspiração, especialmente valiosas para quem escreve, constrói universos e cria sentido em meio à incerteza cotidiana.
Fugir das telas para criar o agora
Se no período pandêmico as pessoas ficaram hiperconectadas, agora o movimento parte para o lado oposto. A ideia é se desconectar para criar conexões reais no offline. Não se trata apenas de desligar o celular, mas de usar as mãos para interagir com o mundo físico.
Provavelmente você deve ter notado, no ano passado, o aumento da procura por livros de colorir, aulas de cerâmica, crochê, tricô, bordado, pintura, desenho, lettering, colagem, culinária e dança, por exemplo. Neste ano, a tendência é que a busca por atividades fora das telas continue crescendo.
Tendo isso em mente, surge uma oportunidade de explorar o ambiente ao redor e se aventurar a testar algo novo pela primeira vez, ampliando o próprio repertório.
No mercado editorial: observa-se um aumento na procura por livros interativos e por livros que ensinam atividades manuais. Também cresce o interesse por ficções de cura e pela Cozy Fantasy, que oferecem “conforto cognitivo” e promovem, de certa forma, acolhimento emocional.
Alguns exemplos: Murdoku: 80 mistérios para resolver usando a lógica | Hirameki: Desenhe o que você vê | Um pouco do mundo todo: 100 desenhos para arriscar | Agatha Christie: mais de 100 mistérios interativos | Murdle: Volume 1 | Detetive: O Caso do Diamante Dumpleton | Desenhando letras: Um guia prático para dominar a arte de escrever à mão | Um mistério de Natal | Decidi viver como eu mesma | A loja de cartas de Seul | A doceria mágica da Rua do Anoitecer
O ano da imperfeição intencional
Em tempos de popularização do uso da IA, esta tendência surge como uma resposta direta ao excesso. Se a inteligência artificial gera textos, áudios, vídeos e imagens praticamente perfeitos, o humano se destaca pelo erro, pelo rascunho da ideia e pelo olhar criativo que guia o processo.
No mercado editorial: há uma valorização da estética zine (fanzine), especialmente entre artistas independentes. Capas com tipografia feita à mão (lettering), ilustrações em estilos como aquarela, doodle, flat, vetorial e paper cut, além de diagramações que remetem a colagens, ganham espaço.
Também é possível observar um aumento do interesse por histórias inspiradas em vivências reais ou com personagens complexos e imperfeitos, dilemas morais e conflitos que questionam o que é certo e errado.
Alguns exemplos: Uma delicada coleção de ausências | Meridiana | Canção para ninar menino grande | Uma vida e tanto | A empregada | Dom Casmurro | Emma | Quarto de despejo: diário de uma favelada
Renascimento latino e o "Brasil Core"
A cultura pop global tem voltado os olhos para a América Latina. Depois da onda coreana (K-pop e K-dramas), que ainda segue forte, cresce o interesse pela estética, energia e pelo realismo mágico latino-americano. Provavelmente você já se deparou com a frase “latina demais pra ser minimalista”, com o novo álbum do Bad Bunny ou com o Projeto Dominguinhos. São apenas alguns exemplos, mas, em tempos incertos e diante das mudanças políticas em curso, ter orgulho das próprias raízes torna-se um ato de resistência.
Voltando o olhar para o Brasil, há algum tempo o “jeitinho brasileiro” vem ganhando espaço no exterior. Seja no cinema, na moda, na literatura, na música ou na culinária, o Brasil tem se feito presente e despertado atenção.
No mercado editorial: cresce a busca por histórias que representem o país em toda a sua pluralidade. Em meio ao avanço da IA e ao distanciamento provocado pelo digital, as pessoas sentem falta de calor humano, representatividade, cor, memória e sotaque.
Como disse o ator Wagner Moura em seu discurso ao receber o Globo de Ouro de Melhor Ator:
“O Agente Secreto é um filme sobre memória — ou sobre a falta de memória — e sobre trauma geracional. Acho que, se o trauma pode ser passado entre gerações, os valores também podem. Então isso é para aqueles que permanecem fiéis aos seus valores em momentos difíceis.”
Somos um povo criativo e cheio de histórias para contar. Que tal aproveitar esse momento para dar vida às suas ideias e mostrar que o brasileiro tem molho?
No mercado editorial: o realismo mágico e o folclore brasileiro (cangaceiros, mitos indígenas, lendas urbanas), com uma linguagem pop e contemporânea, podem ser boas apostas. Também vale explorar a nostalgia de outrora: histórias ambientadas em eras pré-smartphone (anos 90 e 2000) ganham força não apenas pela estética, mas porque exigem presença, afinal os personagens não podem resolver tudo com uma busca no Google ou com o ChatGPT.
A ficção especulativa também tende a ganhar destaque ao abordar temas atuais sob novas perspectivas. O leitor não quer apenas histórias sobre dias apocalípticos — para isso, basta assistir ao noticiário. Ele quer saber como vamos sobreviver ao fim do mundo. Está em busca de uma dose de esperança.
Alguns exemplos: Auto da Compadecida | Torto Arado | Salvar o Fogo | Coração sem Medo | A cabeça do santo | Solitária | Bala no Alvo, Dente de Leão | A história que nunca vivemos | Garras | Feras em campo | A Sociedade das Ilhas Submersas | Ideias para adiar o fim do mundo | Memórias do cacique
Curadoria humana e conexões reais
As pessoas estão cansadas de não saber mais o que é real e de se tornarem reféns dos algoritmos. Nesse cenário, cresce a busca pelo que é confiável. Leitores tendem a valorizar a opinião de amigos, professores, resenhas em blogs e canais especializados, com gostos semelhantes aos seus, em vez de seguir apenas os best-sellers genéricos do TikTok.
No mercado editorial: há um retorno das comunidades de nicho presenciais. Clubes do livro / de leitura que se reúnem em cafés, bibliotecas comunitárias e feiras literárias, além do fortalecimento das figuras do livreiro e do bibliotecário como verdadeiros “sommeliers de histórias”.
A busca por novas alternativas
A instabilidade da Amazon (mudanças abruptas de regras, banimentos sem explicação clara e saturação de conteúdo gerado por IA), somada às transformações nas redes sociais, tem levado autores a buscar novas formas de monetizar seu trabalho e criar relações mais próximas com o público.
Nesse contexto, podermos ver um aumento de autores explorando a serialização, com histórias lançadas capítulo a capítulo em plataformas mobile, mas com qualidade editorial profissional, afastando-se do amadorismo comumente associado às fanfics. Também ganham espaço blogs, newsletters e grupos fechados, que oferecem mais liberdade criativa e contato direto com os leitores, além da diversificação da presença entre plataformas.
Além disso, investir na presença física, como em feiras literárias, encontros em bibliotecas, livrarias e escolas, pode ser uma excelente alternativa para divulgar o trabalho e criar conexões reais.
No fim das contas, falar de tendências não é sobre correr atrás do próximo “novo”, mas sobre escutar com atenção o que o presente está tentando dizer. Em um mundo acelerado, saturado de estímulos e certezas artificiais, escrever e criar, torna-se um ato de presença, escolha e sensibilidade.
As histórias que ganham força agora nascem do contato com o real: com o corpo, com a memória, com o território, com o outro. Elas não buscam perfeição, mas verdade. Não oferecem respostas prontas, mas abrem espaço para perguntas muitas vezes difíceis, mas necessárias.
Que 2026 seja menos sobre seguir fórmulas e mais sobre cultivar repertório, identidade e escuta. Porque, quando a criação parte do agora e se conecta com o que é vivido, nenhuma tendência passa, ela se transforma em linguagem, estilo, assinatura e permanência.
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