sexta-feira, 14 de maio de 2021

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Foto de Patrick Fore, via Unsplash.

Olá, escritores!

Dando sequência à nossa série de entrevistas (começada lá no início de nosso site), nossa equipe conversou com o Evan C, autor vencedor do prêmio Wattys, do Wattpad. Venha conhecer mais da carreira literária de mais um autor nacional.


Projeto Escrita Criativa: Qual é a sua memória de leitura mais remota? 
Evan C: É de antes de eu nascer, quando eu revisava meus próprios textos que eu rabiscava na parede interna do útero da minha mãe. Costumava escrever alguns acontecimentos como se fosse um diário do que acontecia comigo naquele lugar solitário e úmido. Lembro que a sexta semana foi a mais tensa...! Bom, e depois de nascer, minha memória de leitura mais remota, com certeza, foi com gibis. Provavelmente, um do Homem-Aranha (apesar de eu preferir o Batman)

PEC: Comente um pouco como foi o seu despertar para a escrita. Em qual momento você passou a se intitular escritor? Como foi para você deixar de ver a escrita como um hobby e passar a vê-la como um trabalho? 
EC: Meu despertar para a escrita acho que surgiu lá pela quarta série, quando a professora nos pediu para escrever uma história com tema livre. E eu narrei as aventuras de um prego que era perseguido por um martelo malvado, que acaba morrendo queimado numa fogueira, enquanto o prego bonzinho termina pregado na parede de uma casa segurando um belo quadro. Na minha cabeça na época era um final feliz. Ficar eternamente pregado... Enfim, lembro dos elogios da professora e de minha história ser escolhida a melhor da classe. Acho que a sementinha de escritor foi plantada ali. Anos depois, a coisa cresceu quando tentei escrever uma aventura onde eu e meus colegas de classe éramos os heróis (por que não, né? ) A história era um lixo, mas me deu o start de que eu poderia escrever algo mais extenso e parecido com um livro tradicional. Quanto à segunda pergunta, a escrita para mim ainda é um hobby. Por enquanto, ainda tenho que suar a camisa do modo tradicional para conseguir dinheiro. Mas, quem sabe no futuro a escrita não passe a ser a ‘profissão’, né? 

PEC: Quem são os autores que te influenciam? Eles aparecem de alguma forma na sua obra? Como? 
EC: Os autores que mais me influenciam são dois: Stephen King e Harlan Coben. Stephen King é simplesmente o rei, o maior escritor na minha humilde opinião. Insuperável. E me impressiono com a facilidade que ele tem em conduzir a narrativa, acrescentando elementos fantásticos de maneira natural e crível, onde você realmente aceita tudo aquilo, por mais absurdo que possa parecer. Sem contar o talento que o mestre tem em criar cenas tocantes, independente do peso do enredo. E a versatilidade dele é outra coisa que impressiona. Ele descreve, terror, romance, drama, tudo com a mesma maestria. Quanto à Harlan Coben, ele possui uma narrativa ágil, que prende o leitor, e quase sempre pontuada com bom-humor, que se mostra sutil nos diálogos e nas reações dos personagens. Procuro acrescentar tudo isso na minha escrita, embora o mais ‘fácil’ seja a parte de bom-humor na narrativa, porque a versatilidade do mestre King ainda é um desafio quase impossível de acrescentar ao meu estilo. 

PEC: Como é o seu processo de escrita? Você tem alguma rotina/mania ao escrever? Você tem alguma dica de ouro para este momento? 
EC: Eu costumo escrever quando vem a inspiração. Não consigo tirar um tempo para me dedicar a isso, porque corro o risco de ficar horas sentado na frente do PC e terminar num joguinho do celular... Quando a inspiração vem, eu aproveito e despejo tudo no papel (tela). E minha dica de ouro é: esteja sempre pronto para anotar as ideias que surgem do nada. Um bloco de notas no celular é ótimo para isso. Porque essas ideias costumam desaparecer rápido e raramente voltam. O negócio e aproveitar. 

PEC: Você tem alguma formação literária, estuda por conta própria ou escreve de maneira intuitiva? 
EC: Como é o seu processo de busca por aprimoramento profissional? 
Não tenho formação literária. O que eu sei consegui absorver com muita leitura e estudo básico de técnicas de escrita. Minha busca por aprimoramento é sempre ler o máximo que posso. E algumas matérias e vídeos no youtube também ajudam. Como as lives do Projeto Escrita Criativa com a Fer, a Ane e a Ayumi. Além claro, das dicas de diagramação do Cara de Bigode e da Ayumi (não necessariamente nessa ordem de importância) que foi onde conheci o projeto. 

PEC: Ainda falando sobre o seu processo de criação, quais são os desafios diários de ser escritor? (Como você lida com a procrastinação? Com medo de não corresponder às expectativas? Às vezes bate aquela sensação de insegurança, sensação de não ser bom o bastante? Como você vence os bloqueios criativos de modo geral?) 
EC: Para mim, os maiores desafios diários de ser escritor é lidar com as ideias que surgem nas horas mais erradas possíveis. Sabe aquela combinação incrível de palavras para criar a narrativa perfeita que lhe daria um Nobel de Literatura apenas por aquele parágrafo? Pois é. Elas surgem e somem assim, num estalo de dedos, e eu quase nunca consigo capturá-las para utilizar depois, porque sempre surgem quando eu NÃO POSSO anotar... Sobre o medo de não corresponde às expectativas, eu não dou muita bola, já que a escrita para mim ainda é um hobby e eu costumo rir das críticas mais severas, ao invés de me chatear. Principalmente, quando percebo que a intenção é apenas criticar. Nestes casos, o crítico quase sempre acaba rindo das minhas respostas aos seus ataques e a gente acaba virando amigo. E quanto aos temíveis bloqueios criativos eu venço eles na porrada quando aparecem. 

PEC: Falando do texto em si, o que você mais gosta de escrever? Como funciona o seu processo de pré-publicação dos seus escritos e o que você acha importante fazer antes de soltar um texto no mundo? 
EC: Eu gosto muito de escrever histórias que tenham ação e aventura, mas pontuada com uma trama envolvente e não previsível, com viradas inesperadas e um romancezinho legal do herói, pois nem os protagonistas são de ferro. A não ser, claro, que ele seja o Homem de Ferro... Mas, na verdade, nem ele é de ferro, só a armadura. Bom, enfim... Resumindo a resposta, acho que o mais importante antes de publicar um texto é revisá-lo bem para limitar o máximo possível o surgimento de erros. Isso é essencial. (e se tiver algum erro de ortografia nesta entrevista, culpem as meninas o projeto :P ) 

PEC: Como você conheceu o Wattpad? Como foi o processo de escolher publicar lá? 
EC: Eu conheci o Wattpad há alguns anos atrás através de uma amiga do trabalho, que hoje mora na Alemanha. Beijão pra você Vanessa! E o processo de escolher escrever lá foi bem natural. Como o Wattpad era (e ainda é) a maior plataforma digital de publicação gratuita do mundo, e eu queria ver a reação ‘verdadeira’ de leitores com a minha história (porque na época, opinião de noiva, mãe, pai, irmãos e amigos próximos não contavam. Sempre estava ‘muito bom!’ ‘nossa, querido, perfeito’, ‘você parece escritor profissional’... e eu sabia que tinha partes que estava um lixo. Enfim, opinião de familiares não são ‘confiáveis’. Nunca. Mas de estranhos, pode ter certeza que vale a pena considerar, porque serão sinceros.



PEC: Você ganhou um prêmio no Wattpad, como foi esse processo? 
EC: Sim. Eu fui os dos vencedores na categoria ficção científica no idioma português. O Prêmio Wattys acontece todos os anos e premia as melhores histórias da plataforma no mundo inteiro, em dez categorias e idiomas diferentes. Depois do período de inscrições, que se iniciam lá pelo meio do ano, se passam alguns meses dedicados à avaliação das histórias, e só lá pelo final do ano que saem os resultados. É um período longo de espera, mas compreensível pelo número de histórias a serem analisadas. Alguns me perguntam quantas histórias concorreram, mas eles não divulgam esses números. Os dados oficiais apontam que existem mais de 300 milhões de histórias postadas no Wattpad, mas não faço ideia de quantas existem em português. Nem de quantas foram inscritas no concurso. Mas imagino que foram muitas. 

PEC: Você viu alguma vantagem de publicar no Wattpad, que não teria em outra plataforma/forma de publicação? 
EC: Sim, com certeza. A interação com os leitores que ocorre lá não é possível pelos meios tradicionais. E lá é o lugar perfeito para criar seu público. Mas, claro, financeiramente, não é a melhor opção, pois é tudo gratuito. Apenas recentemente começaram a implantar um sistema de moedas para ‘comprar’ a leitura de histórias. Mas como não me interessa, nem sei como funciona. 

PEC: Publicar de forma independente valeu a pena? Você faria novamente? 
EC: Com certeza, publicar no Wattpad valeu a pena e eu faria novamente. Principalmente, por ainda se tratar de um hobby para mim. Mas, por outro lado, eu fui ousado arriscando publicar um livro de contos na Amazon e estou muito satisfeito com o retorno financeiro, onde já recebi a quantia de zero reais. Creio que em um ano devo dobrar esse valor. E, pensando mais ambiciosamente, daqui a uns cinco anos, se continuar com esse sucesso estrondoso, devo mandar meu patrão para o casa do car@leo e curtir minha vida apenas aproveitando os valores astronômicos que cairão na minha conta pelos lucros desse meu conto de sucesso, onde temo apenas que o PIB brasileiro caia mais de 70% devido ao fato de o dinheiro dos investidores nacionais e internacionais serem gastos quase todo na compra compulsiva de exemplares de minha obra, que em breve vencerá um Nobel de Literatura e o prêmio Pulitzer.... Sem contar nos contratos com estúdios de cinema para versões cinematográficas... e das séries nos canais de streaming... e dos bonequinhos... e livros para colorir... comics... e chaveiros... e tatuagens personalizadas... selos para cartas... aliás, ainda existe selo pra carta? 

PEC: Como você vê o mercado para os autores nacionais? Quais dicas você daria para o autor que quer ver o seu trabalho publicado? 
EC: Acho que não só no cenário nacional, acho que no mundo todo ficou muito difícil se destacar nesse meio literário. A facilidade de se publicar de maneira independente saturou o mercado. Por um lado, é bom, porque se tornou fácil ter o sonho realizado de ter o seu livro físico nas mãos e se sentir um ‘escritor de verdade’. Mas por outro lado, a concorrência e a crise atual torna o sonho de se destacar muito mais complicado. A dica que eu daria nem é em relação a ter o seu livro publicado. Pois isso, como já falei, se tornou muito fácil. A dica seria no sentido de tomar cuidado com a empolgação pelo sucesso numa tentativa de publicação independente visando viver da escrita, pois precisa ter os pés no chão sobre isso para evitar frustrações. Não é pessimismo, é apenas um senso de realidade. Isso deve ser feito com cautela e noção dos riscos. 

PEC: Qual é a sua opinião sobre os influenciadores digitais? Já fez ou pensou em fazer parceria? Caso a resposta seja sim, como foi a experiência, deu resultado? 
EC: Kkkkk não entendo nada de influenciadores digitais. O máximo de interação que tive foi com vocês do projeto. 




PEC: O que você está lendo no momento? Qual o livro que marcou a sua vida como leitor? 
EC: Estou lendo Léxico, do Max Barry. É... as palavras matam. Só lendo para entender isso. E o livro que marcou minha vida foi Os Miseráveis, do Victor Hugo. Uma leitura que demandou muito tempo e paciência pelo cenário político que era retratado junto à trama, e que deixava a leitura um pouco arrastada. Mas quando você se envolve com os personagens e se sente na pele de Jean Valjean, a coisa vira mágica e é inacreditável comprovar como um livro de 149 anos consegue te tocar tão fundo. Não sou fã de clássicos, mas Os Miseráveis é um caso à parte em que eu arrisquei a leitura por adorar um dos vários filmes e fui arrebatado. Clássicos nacionais, não leio. Ainda traumatizado com Dida, de José de Alencar. Me julguem. 

PEC: Você está trabalhando em um novo projeto? Qual? Você pode nos contar um pouco sobre ele?
EC: Olha, meu novo projeto ainda está nos ‘esboços’ e seria uma ficção científica com toques de comédia. Ainda estou alinhando a espinha dorsal do roteiro. (É que só consigo escrever quando o básico da história já estiver determinado. Se for para criar a trama durante a escrita, não rola muito bem. 

PEC: Como os seus leitores podem entrar em contato com você? 
EC: Bom, sou meio avesso a redes sociais e me limito ao Wattpad, portanto, podem me encontrar lá: https://www.wattpad.com/user/evanc2000 ou pelo e-mail: goiano.sc@gmail.com 

PEC: Deixe o seu recado para os leitores do Projeto Escrita Criativa.
EC: Leitores do Projeto Escrita Criativa, acompanhem o projeto, as meninas são muito legais e nos dão dicas excelentes! Não percam as lives!

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Leia as entrevistas anteriores: 


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quarta-feira, 12 de maio de 2021

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Olá escritores!

Na nossa última postagem falamos sobre o Arquétipo do Herói, e como prometido anteriormente hoje iremos nos aprofundar no arquétipo do Mentor (Velha ou Velho Sábio), com base no que foi apresentado por Christopher Vogler, no livro A Jornada do Escritor.  


A palavra "Mentor" vem da Odisseia, de Homero. Na obra há um personagem chamado Mentor que guia o jovem herói, Telêmaco, em sua Jornada de Herói. Na verdade, é a deusa Atena que assumi a forma de Mentor, para ajudar Telêmaco. É bem comum, os Mentores serem inspirados pela sabedora divina. Inclusive o nome que Campbell dá a esse arquétipo é Velho Sábio ou Velha Sábia. 


A relação entre o herói e o Mentor é uma das fontes mais ricas de entretenimento na literatura e no cinema. Esse arquétipo se expressa em todos aqueles personagens que ensinam e protegem os heróis e lhes dão certos dons.

Os melhores Mentores e mestres entusiasmam, no sentido original da palavra.


"Entusiasmo" deriva do grego en theos, em deus, significando "inspirado por deus, tendo um deus em si, ou estando na presença de um deus".

 

Função psicológica


Os mentores representam o self, o deus dentro de nós, o aspecto da personalidade que está ligado a todas as coisas. Esta é a parte mais sábia, mais nobre, mais parecida com um deus em nós.

As figuras de Mentores, representam as mais elevadas aspirações dos heróis. São aquilo em que o herói pode transformar-se, se persistir na sua Estrada de Heróis. Frequentemente, o Mentor foi um herói que sobreviveu aos obstáculos anteriores da vida, e agora está passando a um mais jovem a dádiva de seu conhecimento e sabedoria. O arquétipo do Mentor se relaciona intimamente à imagem de um dos pais. Muitos heróis buscam Mentores porque seus próprios pais não desempenham papéis que possam ser modelos convenientes para o desenvolvimento de sua jornada.




Exemplos:  A Fada-Madrinha, na história da Cinderela, pode ser interpretada como o espírito protetor da mãe falecida da menina. Merlin é um pai de criação para o jovem rei Arthur, cujo pai morreu.


Funções dramáticas

 

Ensinar

Da mesma forma que aprender é uma função importante do herói, ensinar ou treinar é uma função-chave do Mentor. Vale lembrar que ensinar é uma via de mão dupla. Qualquer pessoa que já tenha ensinado sabe que a gente aprende tanto com os alunos quanto ensina a eles.

 


Dar presentes

Dar presentes é outra importante função desse arquétipo. Na análise que Vladimir Propp fez do conto popular russo, ele identifica essa função como a do "doador" ou provedor: trata-se de alguém que ajuda o herói temporariamente, em geral dando a ele algum presente. Pode ser uma arma mágica, uma chave ou pista importante, algum alimento ou remédio mágico, ou um conselho que pode salvar a vida. Nos dias de hoje, o presente pode ser tanto uma senha de computador quanto a pista para o covil de um dragão.

 


Exemplo: Obi Wan Kenobi dando a Luke Skywalker a espada de luz que fora de seu pai.


Presentes na mitologia


A doação de presentes, ou seja, a função de doador do Mentor, desempenha um papel importante na mitologia. Muitos heróis receberam presentes de seus Mentores, os deuses.


Exemplos: Pandora, cujo nome significa "com todos os dons", foi coberta de presentes, inclusive o vingativo presente de Zeus — a caixa que ela não deveria abrir. Já Perseu se distingue por ser um dos heróis mais bem equipados. Com a ajuda de Mentores como Hermes e Atena, ele foi ganhando sandálias aladas, uma espada mágica, um elmo que o tornava invisível, uma foice mágica, um espelho mágico, a cabeça de Medusa, que transformava em pedra quem a olhasse, e uma sacola mágica para guardar a cabeça. Na maioria das histórias, isso seria um exagero. Mas Perseu é entendido como o paradigma de todos os heróis, por isso compreende-se que ele seja tão presenteado pelos deuses, seus Mentores em sua busca.




Os presentes devem ser merecidos

Na análise que Propp faz dos contos russos, observa que os personagens dos doadores dão presentes mágicos aos heróis, mas geralmente só depois que estes tenham passado por algum tipo de teste. Essa é uma boa regra: O presente ou ajuda deve ser conquistado, merecido, por meio de um aprendizado, um sacrifício ou um compromisso. Os heróis de contos de fadas acabam ganhando a ajuda de animais e criaturas mágicas porque foram bondosos para eles, no início da história, dividindo a comida, ou protegendo-os de maus tratos.

Mentor como inventor

Algumas vezes, o Mentor funciona como um cientista ou inventor, cujos presentes são suas descobertas, planos ou invenções. O grande inventor do mito clássico é Dédalo, que projetou o Labirinto e outras maravilhas para os governantes de Creta. Como artesão-mestre da história de Teseu e o Minotauro, ele ajudou a criar o monstro Minotauro e projetou o Labirinto como uma espécie de jaula gigantesca para prendê-lo. Como Mentor, Dédalo deu a Ariadne o novelo de lã que permitiu a Teseu entrar e sair vivo do Labirinto.



Depois, aprisionado no próprio Labirinto que criou, em castigo por ter ajudado Teseu, Dédalo também inventou as famosas asas de cera e penas que permitiram a ele e a seu filho Ícaro escapar. Como Mentor de Ícaro, aconselhou o filho a não voar perto demais do sol. Mas Ícaro, que crescera na escuridão dos porões do Labirinto, foi irresistivelmente atraído pelo sol, ignorou o conselho do pai e despencou para a morte, quando a cera derreteu.

A consciência do herói

Alguns Mentores desempenham um papel especial, como consciência do herói. Personagens como o Grilo Falante, em Pinóquio, tentam manter viva no herói a lembrança de um código moral. Entretanto, o herói pode se rebelar contra uma consciência insistente. Convém lembrar aos Mentores em perspectiva que, na versão original de Carlo Collodi, Pinóquio esmaga o Grilo para que ele cale a boca.




Motivação

Motivar o herói e ajudá-lo a vencer o medo, é outra importante função do Mentor. Muitas vezes, basta o presente para lhe transmitir confiança e motivação. Em outros casos, o Mentor mostra algo ao herói, ou arruma as coisas de tal modo que ele fica com vontade de agir e se lança à aventura.




Em alguns casos, o herói está tão relutante ou temeroso que deve ser empurrado à aventura. Um Mentor pode ter que dar um leve pontapé na bunda do herói, para que a aventura, enfim, se desenrole.


Plantar

Plantar informação, um adereço ou um indício que, depois, vai se tornar importante, também é uma função comum do arquétipo de Mentor.




Exemplos: Os filmes de James Bond têm uma cena obrigatória, na qual Q, o mestre de armas, um dos Mentores recorrentes de Bond, descreve o funcionamento de alguma nova engenhoca incluída na pasta, a um entediado 007. Essa informação é plantada, e se destina a que a plateia tome conhecimento dela, mas a esqueça, até o momento do clímax em que o truque vai salvar a vida do herói. Essas construções ajudam a amarrar o começo e o fim da história, e mostram que, em algum momento, tudo o que foi aprendido com um Mentor se torna útil.

 

Iniciação sexual

No campo amoroso, a função do Mentor pode ser nos iniciar nos mistérios do amor e do sexo. Na índia, fala-se do shakti — um iniciador sexual, um parceiro que ajuda a experimentar o poder do sexo como veículo para um estágio superior de consciência. Um shakti é uma manifestação de Deus, um Mentor que conduz o amante a experimentar o divino.




Os sedutores e os ladrões da inocência ensinam lições da maneira mais dura. Pode haver um lado de sombra em Mentores que levam o herói pela estrada perigosa do amor obsessivo ou do sexo manipulativo e sem amor. Há muitas maneiras de aprender.

 

Tipos de mentor

Como os heróis, os mentores podem se dispor, ou não, a esse papel. Algumas vezes, podem ensinar sem querer. Em outros casos, ensinam por meio do mau exemplo. A derrocada de um Mentor enfraquecido e tragicamente cheio de defeitos pode mostrar ao herói as armadilhas que deve evitar. Assim como acontece com os heróis, alguns lados obscuros ou negativos podem se expressar por meio deste arquétipo.

 

Mentores escuros

Em certas histórias, o poder do arquétipo do Mentor pode ser usado para desorientar a plateia. Nos thrillers, a máscara do Mentor algumas vezes é uma isca, usada para atrair o herói ao perigo. Há também histórias em que todos os valores heroicos convencionais estão invertidos, onde temos um anti-Mentor para guiar o anti-herói no caminho do crime e da destruição.




Outra inversão da energia desse arquétipo é um tipo especial de Guardião de Limiar. Um exemplo se encontra em Tudo por uma esmeralda, em que tudo indica que a agente literária de Joan Wilder, falante e provocadora, é um Mentor que orienta a carreira dela e lhe dá conselhos sobre os homens. Mas quando Joan está a ponto de cruzar o limiar da aventura, a agente tenta detê-la, avisando-a dos perigos iminentes e a enchendo de dúvidas. Em vez de motivá-la, como um verdadeiro Mentor, a agente transforma-se num obstáculo no caminho da heroína. Isso é psicologicamente muito verdadeiro, na vida real, pois com frequência temos que ultrapassar ou superar a energia de nossos melhores professores, de modo a podermos passar ao próximo estágio de desenvolvimento.

 

Mentores caídos

Alguns Mentores ainda estão trilhando seu próprio caminho, em sua Jornada de Herói pessoal. Podem estar vivendo uma crise de confiança na vocação. Podem estar enfrentando problemas com o envelhecimento, ou se aproximando do limiar da morte, ou ter se afastado da estrada do herói. O herói pode precisar do Mentor para lhe dar apoio mais uma vez, e há sérias dúvidas de que o Mentor possa conseguir dar essa força. Um Mentor desses pode ter que atravessar todos os estágios de sua própria Jornada de Herói, em seu próprio caminho para a redenção.



 

Mentores continuados

Os Mentores também são úteis para designar missões e desencadear a ação das histórias. Por esse motivo, são muito frequentes nos elencos de seriados. 

Exemplo:  Alfred em Batman. 



Mentores múltiplos

Um herói pode ser treinado por uma variedade de Mentores que lhe ensinam habilidades específicas. Seguramente, Hércules é o mais bem treinado de todos os heróis, pois tem como Mentores especialistas em luta, arco-e-flecha, montaria, manuseio de armas, sabedoria, virtude, música. Chega até a fazer, com um dos Mentores, um curso de treinamento sobre como conduzir uma carruagem. Todos nós aprendemos o que sabemos com uma série de Mentores, incluindo pais, irmãos e irmãs mais velhos, amigos, amantes, professores, patrões, colegas de trabalho, terapeutas e outros.



Os Mentores Múltiplos podem ser necessários para exprimir as diferentes funções do arquétipo.

 

Mentores cômicos

Esse tipo de Mentor é comum em comédias românticas.  Normalmente é um amigo ou colega do herói, geralmente do mesmo sexo, que lhe aconselha sobre o amor: vá em frente e esqueça essa tristeza; finja que tem um caso, para seu marido ficar com ciúmes; faça de conta que está interessada nas coisas de que ele gosta; impressione a amada com presentes, flores ou belas palavras; seja mais agressivo etc. Esses conselhos quase sempre acabam levando o herói a uma situação temporária que parece ser o maior desastre, mas, no fim, tudo acaba dando certo.

 


Mentor como xamã

O personagem do Mentor, nas histórias, está intimamente ligado à ideia do xamã ou curandeiro das culturas tribais. Da mesma forma que os Mentores guiam o herói pelo Mundo Especial, os xamãs guiam as pessoas pela vida. Viajam a outros mundos, em sonhos e visões, e de lá trazem de volta histórias que vão curar suas tribos. Muitas vezes, uma das funções do Mentor é ajudar o herói a procurar uma visão que lhe sirva de guia, numa busca de um outro mundo.

 


Flexibilidade do arquétipo do mentor

Como os outros arquétipos, o personagem do Mentor ou doador não é um tipo rígido e previsível, mas uma função, um trabalho que pode ser desempenhado por vários personagens diferentes, no decorrer de uma história. Um personagem que manifesta primordialmente outro arquétipo — o herói, o camaleão, o pícaro, até mesmo o vilão — pode usar, provisoriamente, a máscara de Mentor, para ensinar ou dar algo ao herói.

Embora Campbell tenha chamado essas figuras de Velha ou Velho Sábio, às vezes elas não são velhas nem sábias. Muitas vezes, os mais jovens, em sua inocência, são capazes de dar lições aos mais velhos. O personagem mais tolo de uma história pode ser justamente aquele com quem mais aprendemos. Da mesma forma que ocorre com outros arquétipos, a função de um Mentor é muito mais importante do que sua mera descrição física. São os atos do personagem que determinam qual dos arquétipos está se manifestando naquele momento.


Muitas histórias não têm um personagem específico que possa ser identificado como o Mentor. Não apresentam nenhuma figura de barbas brancas e cara de mago e que ande de um lado para outro no papel de Velho Sábio. No entanto, quase toda história, em algum ponto, recorre à energia desse arquétipo.

 

Mentores internos

Neste caso o herói é um personagem experiente e calejado, que não precisa de Mentor ou guia. Ele já internalizou esse arquétipo, que agora vive dentro dele, como um código íntimo de comportamento. O Mentor pode ser o código de conduta, ou as noções secretas de honra . Um código de ética pode ser a manifestação não-personificada de um Mentor, guiando as ações do herói. Não é raro que um herói se refira a um Mentor que significou algo para ele, anteriormente na vida, mesmo se não aparece na história nenhum personagem de Mentor. Um herói pode recordar "Minha mãe, meu pai, meu avô ou meu professor costumava dizer..." e então exprimir a sabedoria contida no conselho que será crucial para resolver o problema da história. A energia do arquétipo de Mentor também pode estar investida num adereço, como um livro ou outro objeto, que guia o herói em sua busca.

 

Colocação dos mentores

Embora a Jornada do Herói, muitas vezes, encontre o Mentor já no primeiro ato, a colocação do Mentor numa história é uma consideração prática. Pode ser necessário, em qualquer ponto da história, a presença de um personagem que saiba tudo sobre cordas, que tenha o mapa de uma região desconhecida, ou que possa dar ao herói a informação vital no momento exato. Os Mentores podem surgir no começo de uma história ou esperar na coxia até que sejam necessários, no instante crítico do segundo ato ou do terceiro ato.




Os Mentores fornecem aos heróis motivação, inspiração, orientação, treinamento e presentes para a jornada. Todo herói é guiado por alguma coisa, e uma história que não reconheça isso e não deixe um espaço para essa energia estará incompleta. Quer se exprima como um personagem concreto ou como um código de conduta interno, o arquétipo do Mentor é uma arma poderosa nas mãos do escritor quando bem utilizada.


Esperamos que você tenha gostando de saber um pouco mais sobre o Arquétipo do Mentor. Na próxima postagem sobre o assunto iremos conhecer mais sobre o Arquétipo do Guardião do Limiar.  Agora nos conte você costuma usar os Arquétipos como base para a criação de seus personagens? 


quarta-feira, 5 de maio de 2021

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Imagem sob licença Creative Commons por cbaquiran

Olá, escritores!

Estamos em mês de comemoração, porque dia 4 de maio o Projeto completou 6 anos de existência! Estamos muito orgulhosas de tudo aquilo que conquistamos ao longo desses anos e da quantidade de pessoas que conseguimos ajudar. Queremos também agradecer a todos que nos acompanharam desde o princípio e aqueles que acabaram de chegar, porque sem vocês, o Projeto não estaria aqui firme e forte.


E é por isso que trouxemos para vocês, 6 curiosidades sobre o Projeto!

 

1. Nunca nos vimos pessoalmente.

O Projeto foi criado por três mulheres (Ane Venâncio, Ayumi Teruya e Fernanda Rodrigues), porém, atualmente cada uma vive em um lugar diferente fazendo com que um encontro delas ao longo desses seis anos fosse impossível. A Ane está no Mato Grosso, a Ayumi em Buenos Aires e a Fernanda em São Paulo. As únicas que já se encontraram pessoalmente foram a Ayumi e a Fernanda quando ela veio para Buenos Aires.


 

2. A equipe do Projeto se armou sozinha.

Para quem não sabe, o Projeto nasceu quando um grupo de blogueiras, que gostavam de escrever, se juntaram para lutar contra o bloqueio criativo e compartilhar a escrita. A Ayumi armou o grupo e logo a Fernanda entrou em contato oferecendo para fazer algumas imagens e propostas de atividades, além de como poderíamos fazer o grupo funcionar, logo entramos em contato com a Ane depois de uma proposta dela sobre um projeto de livro coletivo, ela também se ofereceu para colaborar com as imagens. Ou seja, nenhuma das três se conhecia e foram elas que se voluntariaram para organizar o grupo para que ele se transformasse no que é hoje, fazendo com que a conformação das moderadoras do grupo se desse de forma natural.






3. O Projeto quase foi plagiado.

No ano de 2017 a Fernanda encontrou um selo em um blog que era igual ao selo do Projeto que usávamos naquele momento, a Ayumi pesquisou a fundo e encontrou evidencias de uma pessoa que havia entrado em contato com a equipe, dizendo que a fonte que usávamos no selo era muito linda e queria saber qual era. A pessoa estava participando do Projeto e havia criado um grupo como o nosso, com as mesmas propostas e logo. Entramos em contato, ela nunca respondeu. Nós não estávamos em contra a pessoa criar um grupo que estimulasse a criatividade ou que também tivesse propostas de escrita, aliás, existem vários grupos assim e acreditamos que quanto mais melhor, o que nos preocupou foi que a pessoa usou toda a nossa identidade visual.

Imagem encontrada no blog da dona do grupo Projeto Escrita Coletiva
Nosso logo antigo



4. Participantes internacionais.

No início a maioria dos acessos das redes sociais se limitavam ao Brasil, com o passar do tempo fomos recebendo integrantes de diferentes países de fala portuguesa, como: Portugal, Angola, Moçambique; além de outros integrantes brasileiros que viviam no exterior.


5. A falta de atenção é um problema constante.

O Projeto tenta ao máximo oferecer informações e indicações claras, seja em vídeos ou em publicações escritas. No blog, existe a aba “sobre”, “como participar” e várias outras para auxiliar os escritores, também temos o vídeo explicativo no canal, porém, ainda continuamos recebendo mensagens de pessoas que não sabem como participar ou que não conseguiram “encontrar a informação em nenhum lugar”, respondemos sempre e também enviamos as indicações dessas instruções e o vídeo do Projeto.


No vídeo de diagramação colocamos um comentário fixado sobre o travessão, já que por muito tempo recebemos comentários sobre o uso dele. No comentário fixado explicamos e indicamos diferentes formar de fazer com a intenção de diminuir esses comentários já que está tudo especificado ali, porém continuamos recebendo comentário sobre o mesmo tema.


Outra coisa que acontece por falta de atenção, é a escrita do nome da Ayumi. Já recebemos vários e-mails de pessoas pedindo orçamento ou até mesmo comentários com diferentes variações, mesmo quando o nome dela aparece nas descrições dos vídeos, às vezes em títulos e na própria assinatura do e-mail do Projeto.


Algumas variações: Yumi, a Yumi, Aiumi, Iumi, Ayume, Aiume, Iumi, Ume, Aimi.


6. O Cara de Bigode.

Esse personagem presente nos vídeos do Youtube surgiu de maneira espontânea e sem planejamento como um alívio cômico para os vídeos. O Cara de Bigode representa aquele autor que está em fase de aprendizagem, aquele que ainda precisa aprender muito antes de publicar o livro e entender a importância de cada processo. Hoje em dia, é considerado como uma “piada interna” dos participantes do projeto. 

Como um presente para vocês, deixamos aqui alguns posters do Cara de Bigode!








Queremos agradecer vocês mais uma vez por nos acompanharem e fazerem parte do Projeto! Esperamos continuar por aqui por bastante tempo, sempre ajudando vocês e trazendo novidades. 


quarta-feira, 28 de abril de 2021

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Foto por Bruno Oliveira, via Unsplash.


Olá, escritores!

Estamos aqui para trazer a terceira parte desta série de posts que apresentam expressões que são fonética e ortograficamente parecidas, mas que têm sentidos diferentes. 


Clique aqui para acessar a primeira parte da lista. | Clique aqui para acessar a segunda parte da lista. 


Em vez de / Ao invés de

Em vez de: tem sentido de em lugar de.

Ao invés de:  tem sentido de ao contrário de.


Enfim / Em fim

Enfim: sentido de afinal, finalmente.

Em fim: sentido de no fim.


Enquanto / Em quanto

Enquanto: (conjunção) sinônimo de ao passo de.

Em quanto: (preposição + pronome) sinônimo de qual; por quanto.


Malcriado / Mal criado

Malcriado: mesmo que sem educação.

Mal criado: mesma ideia de tratado mal.


Malgrado / Mau grado

Malgrado: sinônimo de apesar de (se não estiver seguido de preposição).

Mau grado: pode ser:

  • sinônimo de contra a vontade.
  • sinônimo de apesar de (se estiver seguido de preposição).


Nenhum / Nem um

Nenhum: mesmo sentido de ninguém, nada.

Nem um: sinônimo de um só que fosse.


Por quanto / Por quanto

Porquanto: (conjunção) mesmo sentido de visto que.

Por quanto: designa quantidade; preço.


Portanto / Portanto

Portanto: por conseguinte;

Por tanto: por este preço/valor; designa quantidade; preço.



Gostaram?! 
Se quiserem mais dessas expressões, sinalizem nos comentários. Para mais dicas de escrita, clique aqui.


Referência:

BECHARA, Evanildo. Gramática Fácil: completa e rápida de consultar, para responder a todas as suas dúvidas. 1ª Edição. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2014.

quarta-feira, 21 de abril de 2021

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Olá escritores!


Na nossa última postagem falamos sobre os Arquétipos de modo geral e como isso pode te ajudar na hora de criar seus personagens. Como prometido anteriormente a cada postagens iremos nos aprofundar em cada um dos arquétipos mais comuns e mais úteis, de acordo com  Christopher Vogler.  Ao todos serão sete arquétipos, e para começar iremos falar hoje sobre o Herói


Herói

A palavra herói vem do grego, de uma raiz que significa "proteger e servir". Um Herói é alguém que está disposto a sacrificar suas próprias necessidades em benefício dos outros. A raiz da ideia de Herói está ligada a um sacrifício de si mesmo.  A palavra herói é usada para designar um personagem central ou protagonista, independente do seu gênero.

 

Função psicológica: Em termos psicológicos, o arquétipo do Herói representa o que Freud chamou de ego — a parte da personalidade que se separa da mãe, que se considera distinta do resto da raça humana. A jornada de muitos Heróis é a história dessa separação da família ou da tribo, equivalente ao sentido de separação da mãe, que uma criança vivência. O arquétipo do Herói representa a busca de identidade e totalidade do ego.

 

Função dramática: Identificação com o leitor. Os Heróis devem ter qualidades, emoções e motivações universais, que todo mundo já tenha experimentado uma vez ou outra na vida: vingança, raiva, desejo, competição, territorialidade, patriotismo, idealismo, cinismo ou desespero. Mas os Heróis também precisam ser seres humanos únicos, e não criaturas estereotipadas e previsíveis. Eles precisam, ao mesmo tempo, de universalidade e originalidade.

Um personagem real, como uma pessoa real, não é apenas um traço, mas uma combinação única de muitas qualidades e defeitos, alguns deles muitas vezes conflitantes. E quanto mais conflitantes, melhor. Um personagem dilacerado por forças opostas, que o puxam em sentidos contrários para o amor e o dever, já nasce interessante para o leitor. Um personagem que tenha uma combinação única de impulsos contraditórios, como confiança e suspeita, ou esperança e desespero, parece mais realista e humano do que outro que apresente apenas um traço de caráter. Um Herói bem construído pode ser decidido, distraído, encantador, irônico, forte de corpo, mas fraco de coração, tudo ao mesmo tempo. É a combinação especial de características como essas que dá ao leitor a noção de que o Herói é uma pessoa real, e não um tipo.


Outras funções do Herói na história: 


Crescimento: O Herói na história também tem como função aprender ou crescer. Algumas vezes é difícil reconhecer quem é o personagem principal — ou quem ele deveria ser. Muitas vezes, a melhor resposta é: aquele que aprende ou cresce mais no decorrer da história. Os heróis superam obstáculos e conquistam metas, mas também adquirem novos conhecimentos. O ponto central de muitas histórias é a aprendizagem que ocorre entre um Herói e um mentor, um Herói e um amante, e até mesmo entre um Herói e um vilão.


Ação: Outra função heroica é agir ou fazer. O Herói, geralmente, é a pessoa mais ativa da história. Sua vontade, seu desejo, é que impulsionam as histórias para a frente. O Herói é quem deve realizar a ação decisiva da história, a ação que exige maior risco ou responsabilidade.


Sacrifício: A capacidade de sacrifício é a verdadeira marca do Herói, coragem ou força são qualidades secundárias.  


Lidando com a morte: No âmago de toda história existe um confronto com a morte. Se o Herói não enfrenta uma morte real, então há uma ameaça de morte (real ou simbólica), sob a forma de um jogo de alto risco, um caso de amor, ou uma aventura, em que ele pode ganhar (viver) ou perder (morrer). Os Heróis nos ensinam a lidar com a morte. Eles podem sobreviver, provando que a morte não é tão dura. Podem morrer (ainda que simbolicamente) e renascer, provando que ela pode ser transcendida. Podem morrer uma morte de Herói, quando transcendem a morte, ao oferecer suas vidas por uma causa, um ideal, um grupo.

 

Heroísmo em outros arquétipos

 

O arquétipo do Herói não se manifesta apenas no personagem principal, ele pode também se manifestar em outros personagens, quando agem heroicamente. Por exemplo, um personagem sem características heroicas que se sacrifica num momento crucial da história, em benefício dos amigos ou de um bem maior, ganhando assim o direito de ser chamado de Herói.




Isso pode funcionar muito bem quando se tem um vilão ou antagonista que, inesperadamente, manifesta qualidades heroicas.

 

Defeitos nos personagens

 

Defeitos interessantes humanizam um personagem. Podemos reconhecer pedaços de nós mesmos num Herói desafiado a ultrapassar dúvidas internas, erros de pensamento, culpa ou trauma no passado, ou medo do futuro. Fraquezas, imperfeições, cacoetes e vícios imediatamente tornam um Herói ou qualquer personagem mais real e atraente. Parece que quanto mais os personagens forem neuróticos, mais as plateias gostam deles e se identificam com eles.



Os defeitos também dão ao personagem um caminho a percorrer — o chamado "arco do personagem", em que ele se desenvolve da condição A para a condição Z, numa série de etapas. Os defeitos são um ponto de partida, feito de imperfeição e de algo a completar, a partir do qual o personagem pode crescer.

 

Tipos de Herói

 

Há Heróis de vários tipos, incluindo os que querem e não querem ser Heróis, os solitários e os solidários, os Anti-heróis, os Heróis trágicos e os catalisadores. Como todos os outros arquétipos, o conceito de Herói é muito flexível, e pode expressar muitos tipos diferentes de energia. Os Heróis podem se combinar com outros arquétipos e produzir híbridos, como o Herói Picaresco, ou podem vestir, provisoriamente, a máscara de outro arquétipo, e assim transformar-se um Camaleão, Mentor ou em outros — até mesmo numa Sombra.




Embora, geralmente, seja pintado como uma figura positiva, o Herói também pode expressar lados escuros ou negativos do ego. O arquétipo do Herói geralmente representa o espírito humano numa ação positiva, mas também pode mostrar as consequências da fraqueza ou a relutância em agir.

 

A disposição do Herói

 

De acordo com Vogler, existem dois tipos de Heróis:

 

1. Os decididos, ativos, loucos por aventuras, que não têm dúvidas, do tipo sempre-em-frente, automotivados.

2. Os pouco dispostos, cheios de dúvidas e hesitações, passivos, que precisam ser motivados ou empurrados por forças externas para se lançarem numa aventura.

 

Os dois tipos são capazes de garantir histórias muito divertidas, embora um herói mais passivo no decorrer de toda a narrativa possa ser responsável por uma experiência dramática sem muito envolvimento. Geralmente, é melhor que um Herói pouco disposto mude em algum ponto da história, e se torne ligado à aventura depois que lhe é fornecida alguma motivação necessária.

 

Anti-heróis

 

O termo "anti-herói" pode levar ao erro, uma vez que ele não significar o oposto de um Herói, mas um tipo especial de Herói. Ele pode ser alguém considerado do ponto de vista da sociedade como um marginal ou um vilão, mas com quem a plateia se solidariza, basicamente. Os Anti-heróis podem ser de dois tipos:

 

1. Personagens que se comportam de modo muito semelhante aos Heróis convencionais, mas a quem é dado um toque muito forte de cinismo, ou uma ferida qualquer.


O Anti-herói ferido pode ser um cavaleiro heroico numa armadura enferrujada, um solitário que rejeitou a sociedade ou foi rejeitado por ela. Esses personagens podem acabar vencendo, e podem ter, o tempo todo, a solidariedade total da plateia, mas aos olhos da sociedade são fora-da-lei, como Robin Hood, Han Solo, de Star Wars.




Amamos esses personagens porque são rebeldes e torcem o nariz à sociedade, como gostaríamos de fazer.


2. Heróis trágicos, figuras centrais de uma história, que podem não ser admiráveis nem despertar amor, e cujas ações podemos até deplorar.


O segundo tipo de Anti-herói se aproxima mais da ideia clássica do herói trágico. São Heróis com defeitos, que nunca conseguem ultrapassar seus demônios íntimos, e são derrotados e destruídos por eles. Podem ser encantadores, alguns podem ter qualidades admiráveis, mas o defeito ganha no final. Alguns dos Anti-heróis trágicos não são tão admiráveis, mas observamos sua queda com fascínio, pois sentimos que "antes eles do que a gente".  Ex: Mulher-Gato, Deadpool, Justiceiro. 





Heróis voltados para o grupo

 

Outra distinção que deve ser feita a respeito dos Heróis leva em conta sua relação com a sociedade. Como os primeiros contadores de histórias, aqueles primeiros humanos que saíam caçando e recolhendo plantas nas planícies da África, a maioria dos heróis se orienta para o grupo. Ou seja, fazem parte de uma sociedade, no início da história, e sua jornada os leva para uma terra desconhecida, longe de casa. Quando os encontramos pela primeira vez, fazem parte de um clã, uma tribo, uma aldeia, uma cidade, uma família. Sua história conta a separação desse grupo (primeiro ato), sua aventura solitária num lugar remoto (segundo ato), e, muitas vezes, sua reintegração final com o grupo (terceiro ato).




Os Heróis orientados para o grupo muitas vezes enfrentam a escolha entre voltar ao Mundo Comum do primeiro ato ou ficar no Mundo Especial do segundo ato. Na cultura ocidental, são raros os Heróis que decidem ficar no Mundo Especial, mas eles são bastante comuns nos contos clássicos da Ásia ou em narrativas indígenas.

 

Heróis solitários

 

Com esse tipo de Herói, a história começa com seu afastamento da sociedade. Seu ambiente natural é a natureza selvagem, seu estado natural é a solidão. Sua jornada é de retorno ao grupo (primeiro ato), aventura dentro do grupo, no ambiente normal do grupo (segundo ato), e retorno ao isolamento na natureza (terceiro ato). Para esses, o Mundo Especial do segundo ato é a tribo ou a aldeia, que visitam brevemente, mas na qual não se sentem à vontade



Da mesma forma que ocorre com os Heróis orientados para o grupo, esses heróis solitários têm a escolha final de retornar a seu estado inicial (no caso, solidão) ou de permanecer no Mundo Especial do segundo ato. Alguns Heróis começam como solitários e terminam como Heróis ligados ao grupo, e optam por ficar em sociedade.

 

Heróis catalisadores

 

Os Heróis catalisadores, são figuras centrais que podem agir heroicamente, mas que não mudam muito ao longo da narrativa como se é esperado que aconteça na jornada do protagonista. Isso acontece porque sua função principal é provocar transformações nos outros, e não em si mesmo.

 


Os heróis catalisadores são especialmente úteis para seriados. Como o Cavaleiro Solitário ou o Super-Homem, esses Heróis sofrem poucas mudanças internas, mas agem primordialmente no sentido de ajudar ou guiar os outros em seu crescimento. É claro que é uma boa ideia, de vez em quando, dar até mesmo a esses personagens alguns momentos de crescimento e mudança, a fim de que eles não cansem nem percam a credibilidade.

 

O caminho dos heróis

 

Os Heróis são símbolos da alma em transformação, e da jornada que cada pessoa percorre na vida. Os estágios dessa progressão, os estágios naturais da vida e do crescimento, formam a Jornada do Herói. O arquétipo do Herói é um campo rico para ser explorado por escritores.

 


Esperamos que você tenha gostando de saber um pouco mais sobre o Arquétipo do Herói. Na próxima postagem sobre esse assunto iremos conhecer mais sobre o Arquétipo do Mentor (Velha ou Velho Sábio).  Agora nos conte você costuma usar os Arquétipos como base para a criação de seus personagens? 




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