quarta-feira, 4 de março de 2020

Biblioteca criativa: Devoção, de Patti Smith*

Foto: Facebook da Patti Smith.
Uma viagem de volta a locais visitados há tempos. Uma biografia. Encontros com pessoas. Uma patinadora competindo na TV. Um diário de viagem. A conexão de tudo isso despejada no papel durante uma viagem de trem. Com Devoção, a cantora e escritora Patti Smith compartilha com o público, de modo muito generoso, como seu processo criativo funciona.

O livro é dividido em três partes. A primeira delas, "Como a mente funciona", traz um relato de viagem em que a autora registra as sensações e os encontros (consigo mesma, com seu próprio passado e com outras pessoas). Ao longo da jornada, Patti faz questão de aproveitar a estadia na França para visitar lugares que foram marcantes na história de pessoas que a inspiram. Como todo relato de viagem, esta parte do livro é cheia de referências geográficas, com endereços de onde escritores e artistas trabalharam, e deixa o leitor querendo visitar cada um dos pontos - ainda mais porque a narrativa flui de forma que parece que nós, leitores, estamos caminhando junto com a autora por todas aquelas ruelas. O texto é tão fluido que não nos demos conta de que as páginas estão passando.

Patti Smith lendo um de seus livros. Foto: Facebook da autora.
O relato de viagem prepara o leitor para o conto que segue na segunda parte do livro, "Devoção". É interessante notar como os fatos, aparentemente desconexos, se interligam compondo a narrativa. Desde a formação dos personagens à ambientação, tudo relaciona-se com os registros do olhar de Patti para o mundo. Se na primeira parte do livro, a autora focou em observar as sensações e o tempo presente como um exercício para se nutrir do mundo; na segunda, vemos como ela domina a linguagem a ponto de criar um novo universo a partir de tudo que conseguiu absorver. No conto, Patti Smith devolve essa conexão em forma de arte. Escrever é a sua ação criativa. O mapeamento da primeira parte da obra faz com que o conto se torne ainda mais genial, ganhe ainda mais força. É notável como a tragédia da guerra (relacionada à família da protagonista) norteia a falta de se sentir um sujeito histórico que a personagem principal carrega consigo. Patti traz com contundência e delicadeza o existencialismo ao seu leitor. Há sentido na vida? Vale a pena viver? É eficaz tentar/aceitar qualquer coisa em busca de um sonho?

Por fim, mas não menos importante, o leitor se descobre na terceira parte da obra, "Um sonho não é um sonho", em que Patti descreve como foi sua visita à casa de Albert Camus. Lá ela tenta responder aquela pergunta com a qual muitos escritores se atraem: "Por que alguém se sente compelido a escrever?". Aqui, o texto ganha o mesmo tom de relato da primeira parte do livro, com um diferencial: se antes a escrita que tentou responder a tudo isso era empírica; agora, ela surge de modo mais consciente - ainda que sem uma resposta exata.

É interessante como Devoção inspira seu leitor a querer seguir os passos de Patti Smith não só no sentido de viver uma vida mais presente (seja na observação, seja no registro do diário), mas também no sentido da busca por conhecer de perto a vida dos artistas que nos inspiram.

O livro também apresenta ao longo das páginas algumas fotografias (sendo a maior parte delas da própria Patti) e as páginas fac-símile do conto.
"... a mente também é uma musa".
(página 09)
Livro: Devoção
Título original: Devotion
Autora: Patti Smith
Tradução: Caetano W. Galindo
Páginas: 144
Apresentação: Por que escrevemos? De onde vêm as ideias para uma história? Como funcionam as engrenagens da inspiração e da literatura? Dividido em três partes, Devoção vai refletir sobre questões como essas. O relato se inicia com uma viagem da autora a Paris. Percorrendo as "ruas abstratas de Patrick Modiano" e lendo uma biografia de Simone Weil, Patti Smith começa a esboçar um conto, que vai se materializar no segundo capítulo do livro – a história de uma jovem patinadora, sua jornada em busca de si mesma e de suas origens. Ao fim, Patti volta à cena e narra uma visita à casa de Albert Camus, na cidade de Lourmarin, onde depara com o manuscrito de O primeiro homem, romance inacabado do escritor argelino. "Por que alguém se sente compelido a escrever?", é a pergunta que nos acompanha até o fim. "Para dar voz ao futuro, revisitar a infância. Para dar rédea curta às loucuras e aos horrores da imaginação", Patti diz. E porque, afinal, "não podemos apenas viver".
Livro no Skoob. | Clique aqui para ouvir o podcast que a Companhia das Letras gravou com a autora.

*Resenha postada originalmente no site Algumas Observações.
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Um comentário:

  1. Olá! Se tem algo que amo fazer é ler biografias, gosto de ver o que passou, de estar na história e ver como tudo aconteceu, analisar e ver como as coisas mudaram e leio bastante biografia, acho muito válido para cada um de nós.
    Beijocas.

    https://www.parafraseandocomvanessa.com.br/

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