quarta-feira, 9 de junho de 2021

Dicas de escrita: diferenças e usos dos porquês nas variantes do português brasileiro e europeu

Livro aberto com o título "Dicas de escrita: diferenças e usos dos porquês nas variantes do português brasileiro e europeu"
Foto por Mikołaj, via Unsplash.

O uso dos porquês é algo que sempre traz dúvidas para os escritores e falantes da língua portuguesa, principalmente aqui no Brasil. Apesar de a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) ter assinado um acordo ortográfico para tornar as variantes mais homogêneas entre si, ainda há alguns pontos relativos ao uso e grafia das palavras que são diferentes no Português Brasileiro (PTBr) e no Português de Portugal (PTPt) — também conhecido como Português Europeu.

Bandeira da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa.

Vale dizer aqui que, apesar de o Brasil ser a localidade que concentra o maior número de falantes da língua portuguesa, outros lugares do mundo usam a variação europeia como grafia oficial. Nós, brasileiros, estamos cada vez mais em contato com a variante de Portugal, uma vez que temos mais acesso não só a autores portugueses, mas aos moçambicanos, angolanos, cabo-verdianos (Saramago, Valter Hugo Mãe, Mia Couto, Pepetela, Agualusa, Gonçalo M. Tavares, Paulina Chiziane, Ondjaki e tantos outros que são lidos com frequência por aqui). É claro que autores africanos usam a variante europeia somadas à cultura e ao vocabulário de seu país de origem. Cabe a nós, leitores brasileiros, perceber a diferença ortográfica e gramatical ao compararmos os textos de outras variantes com o que temos como gramática normativa por aqui. O mesmo fenômeno se dá com os nossos livros (músicas e programas de televisão) que saem do Brasil para toda a CPLP. Lá, os falantes percebem que nós temos o nosso próprio modo de falar que se distingue do deles.


Dois porquês X Quatro porquês

Português de Portugal (PTPt)



A variação europeia da língua portuguesa resolveu a questão de forma mais simplificada se comparada à brasileira, adotando apenas duas formas de grafia: porque e porquê — mesmo que essas palavras apareçam em perguntas diretas. Vejamos: 

1. Eles usam porque — tudo junto e sem acento — para perguntas e respostas. Aqui, a palavra tem função de advérbio interrogativo ou de conjunção.

2. Já o porquê — tudo junto com acento — indica que a palavra foi substantivada (sempre vem precedida de um artigo: o porquê), sendo sinônimo de: o motivo, a causa, a razão, ou que é um advérbio interrogativo (pergunta no fim da sentença). Vale dizer que este porquê é acentuado porque todas as palavras oxítonas terminadas em -a, -e, o, -em e seus plurais são acentuadas.


Português brasileiro (PtBr)



Aqui no Brasil temos quatro formas de sinalizar o porquê nas sentenças: por que, porque, porquê e por quê. Cada uma com uma função. Repare que é de acordo com a função, não com a pontuação

Conforme aponta o escritor, crítico literário e jornalista Sérgio Rodrigues, no livro Viva a Língua Brasileira!

"Aprendemos na escola uma regrinha muito simples: por que é usado em construções interrogativas e porque, conjunção explicativa ou causal, em construções afirmativas. Como regra geral, vale. O problema é achar que o ponto de interrogação liquida a questão: se existe, é por que; se não existe é porque. Não é bem assim — ou nem sempre é assim".


1. Por que — separado e sem acento — em sentenças interrogativas

Usamos por que — separado e sem acento — tanto nas sentenças interrogativas diretas (que terminam sinalizadas com pontos de interrogação), quanto nas indiretas (que, na maioria das vezes, terminam sinalizadas por ponto final). Neste caso, ele tem ou função de advérbio interrogativo ou de pronome relativo. Quando pronome relativo, esse "que" pode ser substituido por "qual/quais" e/ou acrescido por "razões/motivos". Por exemplo:

  • Por que a Ana foi embora mais cedo? Interrogativa direta. 
O por que poderia ser acrescido de razões/motivos (Por que motivo a Ana foi embora mais cedo? / Por que razão a Ana foi embora mais cedo?) ou ter o que substituido por qual, acrescido de razão/motivo (Por qual motivo a Ana foi embora mais cedo? / Por qual razão a Ana foi embora mais cedo?).

  • Não entendo por que a Ana foi embora mais cedo. Interrogativa indireta.
O por que poderia ser acrescido de razões/motivos (Não entendo por que motivo a Ana foi embora mais cedo. / Não entendo por que razão a Ana foi embora mais cedo.) ou ter o que substituido por qual acrescido de razão/motivo (Não entendo por qual motivo a Ana foi embora mais cedo. / Não entendo por qual razão a Ana foi embora mais cedo).


2. Porque — junto e sem acento — em sentenças explicativas ou causais
Fazemos o uso de porque — junto e sem acento — quando eles assumem a função de conjunção (seja ela coordenativa explicativa ou subordinativa causal). 

Quando aparece como conjunção coordenativa explicativa, como o próprio nome diz, este porque precede a uma explicação, a um motivo. Nesse caso, ele pode ser substituido pelos sinônimos pois (antes do verbo), porquanto, que. Exemplos:
  • Não solte balões, porque podem causar incêndios. 
  • Choveu a noite toda, porque as ruas estão molhadas. 

Repare que, nos dois exemplos acima, é possível trocar a conjunção porque pelos sinônimos já citados (pois, porquanto, que):
  • Não solte balões, pois podem causar incêndios. Não solte balões, porquanto eles podem causar incêndios. |  Não solte balões, que eles podem causar incêndios. 
  • Choveu a noite toda, pois as ruas estão molhadas. 

Quando aparece como conjunção subordinativa causal, também como aponta o nome, esse porque nos aponta para a causa, motivo ou razão da ação que faz parte da oração principal da sentença e que tem, portanto, um efeito ou acontecimento. Pode ser substituido por poisque, como, porquanto, visto que, visto como, já que, uma vez que (com o verbo no indicativo), desde que (com o verbo no indicativo). Exemplos:
  • O tambor soa porque é oco. (causa/motivo: porque é oco; efeito/acontecimento: o tambor soa)
  • Não nos recebeu porque estava de luto. (causa: porque estava de luto; efeito/acontecimento: não nos recebeu)

Assim como acontece com as coordenadas explicativas, o uso da conjunção porque (junto e sem acento) pode ser substituído pelos sinônimos citados antes dos exemplos (poisque, como, porquanto, visto que, visto como, já que, uma vez que, desde que):
  • O tambor soa já que é oco. 
  • Não nos recebeu visto que estava de luto. 

Para quem sabe inglês, uma dica dada por Sérgio Rodrigues para diferenciar o primeiro "por que" do segundo "porque" é fazer o que ele chama de O teste do inglês. Ainda no livro Viva a Língua Brasileira!, ele diz:

Para quem fala inglês, outro truque útil é traduzir por why e because. No exemplo 1 ["Não entendo por que o governo não acordou mais cedo."], temos why, "por que". No 2 ["Você pensa que está a salvo da crise só porque é funcionário público?"], because, "porque". Simples assim.


 3. Por quê — separado e com acento — no fim do período ou seguido de pausas.

O por quê, separado e com acento, é sinônimo de "por qual motivo" e usado no final de frases e orações (reparem que o uso é frases e orações, não onde coloca-se o ponto final/de interrogação) ou quando assume a função de advérbio interrogativo sozinho em uma oração.

  • Estão brigando? Por quê? (= Estão brigando? Por qual motivo?)
  • Sem saber por quê, Carina se sentia inspirada. (= Sem saber por qual motivo, Carina se sentia inspirada.)
  • Não veio por quê? (= Não veio por qual motivo?)
  • Por quê? (= Por qual motivo?)

4. Porquê — junto e com acento — substantivo masculino. 

A palavra porquê, grafada junta e com acento, tem valor de substantivo. Normalmente ela vem precedida do artigo definido o e tem como sinônimo motivo, causa.
  • Não entendi o porquê de você se demitir. (= Não entendi o motivo/a causa de você se demitir.)
  • Eis o porquê da discussão. (= Eis o motivo/a causa da discussão.)
  • Não sei o porquê da sua dúvida. (= Não sei o motivo/a causa da sua dúvida.)
  • Pedro compreendeu o porquê de Camila ter se sentido mal: ele havia se esquecido do aniversário da amada. (=Pedro compreendeu o porquê de Camila ter se sentido mal: ele havia se esquecido do aniversário da amada.)


Para saber mais

O professor Pasquale Cipro Neto fez um episódio do podcast A Nossa Língua de Todo Dia sobre este assunto. Aperte o play para ouvi-lo:



Referências:

BECHARA, Evanildo. Gramática Fácil: completa e rápida de consultar, para responder a todas as suas dúvidas. 1ª Edição. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2014. p.182-183.


BECHARA, Evanildo. Novo dicionário de dúvidas da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. p.228-229.


CEGALLA, Domingos Paschoal. Novíssima Gramática da Língua Portuguesa. 48ª ed. rev. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2008. p.290-291.


RODRIGUES, Sérgio. Viva a língua brasileira!: uma viagem amorosa, sem caretice e sem vale-tudo, pelo sexto idioma mais falado do mundo — o seu. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2016. p.98-100.

Aulete Digital. Por quê. Disponível em: https://aulete.com.br/por%20qu%C3%AA. Acessado em 07 de junho de 2021, às 19:32.

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