quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

Dicas de escrita: como pontuar os diálogos? O uso das aspas e do travessão

Você sabe pontuar os seus diálogos?


Olá, escritores!

No final do ano passado, lançamos a seguinte pergunta no nosso Twitter: 



Algumas das dúvidas que surgiram foram relacionadas ao modo da escrita do diálogo. Qual é o melhor modo de pontuar o discurso direto? O que diz a gramática? Como revisar as falas?
Neste post tentaremos responder a essas perguntas, levando em consideração o que diz a gramática normativa para o discurso direto. Esta ressalva é importante, porque há escritores que criam projetos literários mais experimentais e não seguem o que precede a gramática.

Aspas X Travessão

A gramática normativa de Língua Portuguesa dá preferência ao uso do travessão (—) para a marcação do discurso direto. O uso das aspas duplas ("") é uma influência das línguas anglo-saxãs (como o inglês), que está se tornando cada vez mais popular. Há alguns casos em que é possível combinar as duas pontuações, como veremos a seguir.

O que é o travessão?

O travessão (—) é um traço que tem várias funções na língua portuguesa — podendo, inclusive, substituir vírgulas e parênteses. Um de seus principais papeis é justamente sinalizar o diálogo: 

— Maria, por favor, me passa o seu endereço?

É importante lembrar que o travessão é o traço mais longo de todos e é grafado no meio da altura da linha, diferenciando-se em tamanho do hífen (-) do meia-risca (–) e em posicionamento do underline (_). Vejam abaixo as comparações:
  • Hífen: -
  • Meia-risca: – 
  • Travessão: 
  • Underline: _

Por que é importante mencionarmos tudo isso?

Porque muitas vezes os autores independentes acabam publicando os seus livros com o sinal de pontuação errado, o que transmite um ar de descaso com a obra. Às vezes, esta inadequação é por falta de conhecimento e por falta de revisão de um profissional de Letras que conheça as diferenças entre os quatro sinais mencionados.

Como usar o travessão?

O travessão serve para indicar a abertura do diálogo, aparecendo obrigatoriamente no início da fala. Ele pode ser repetido no meio da sentença para a inserção de alguma informação que apareça intercalada, mas não é usado no fim do que é dito:

— Não quero, mas preciso ir — Joana lamentava-se. 

Caso o diálogo venha com alguma marcação que insira uma informação no meio do que é dito, esta informação virá em letra minúscula, entre os travessões:

— Não quero, mas preciso ir — a filha de Joana lamentava-se. — Não posso me atrasar ou posso perder o meu voo. 


Notem, que a sentença termina em "lamentava-se." e que por ter seu fim ali, ganhou um ponto final(.) antes do travessão seguinte. Isso se dá com qualquer outro sinal de pontuação (vírgula, ponto e vírgula e ponto final).


E as aspas?

Nos diálogos

As aspas duplas ("") podem, como dissemos no início, substituir o travessão nas línguas anglo-saxãs. É importante notar, contudo, que sempre que as aspas são abertas devem ser fechadas. Nosso primeiro exemplo ficaria assim:
"Maria, por favor, me passa o seu endereço?"

Caso haja informações interpelando a fala, temos:

"Não quero, mas preciso ir", Joana lamentava-se. 
ou 
"Não quero, mas preciso ir ", a filha de Joana lamentava-se. "Não posso me atrasar ou posso perder o meu voo."

Reparem que, após o fechamento das aspas, foi necessário inserir uma vírgula antes da inserção da informação. Segue mais um exemplo, do livro As ondas, de Virgínia Woolf:

"Uma sombra cai sobre a vereda", disse Louis, "como um cotovelo dobrado." 

Usos tradicionais das aspas em português e o uso delas com o travessão

Em língua portuguesa, quando se trata de diálogos, as aspas podem demarcar os pensamentos da personagem ou a menção de fala de uma outra pessoa dentro do discurso direto. Vejamos:

  • Nos pensamentos:
"Meu Deus — pensou Montag, — é isso mesmo! O alarme sempre chega à noite. Nunca de dia!" (Fahrenheit 451, de Ray Bradbury)

  • Menção de falas de outrem:
— Você sabe de que modo ela me chamava? Feia, isso mesmo, Feia, como este fosse o meu nome. "Feia, pode me trazer um copo d'água?". 
(Bairro de maravilhas, de Rosa Chacel)


Por que é importante entendermos essas diferenças?

Porque saber manejar e combinar o uso das aspas e do travessão ajuda o escritor guiar o leitor na dualidade externo (o que é dito) e interno (o que é pensado) no universo de cada um de seus personagens. 



Referências:

KOHAN, Silvia Adela. Como escrever diálogos: A arte de desenvolver o diálogo no romance e no conto. 2ª edição. Belo Horizonte: Gutenberg, 2016. Páginas 34-37.

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