quarta-feira, 14 de outubro de 2020

O texto fala: as vozes dos personagens

 


Não é segredo para ninguém que cada autor tem uma escrita diferente: palavras que costuma repetir, manias e outros toques que o fazem único. Porém, uma das grandes perguntas que todo escritor tem, seja no início ou durante a carreira, é: “Como tornar o meu personagem mais real?”.


Não existe uma resposta única, muito menos uma fórmula secreta para o sucesso, mas existem alguns detalhes que devem ser levados em consideração, um deles é entender a voz do seu personagem.


Assim como cada escritor tem a sua própria maneira de escrever e falar, isso acontece também com os personagens que criamos. A fala de um personagem de 70 anos não será a mesma que a de um de 10, por isso é muito importante entender mais sobre a história de cada um deles: país de origem, elementos culturais ou a etnia, idade, gostos, personalidade...


Antes de explorar esses aspectos e aprender a criar um personagem verossímil, temos que entender a diferença entre língua e linguagem tomada por Barthes no seu discurso “Aula Inaugural”, de 1977. Um primeiro ponto para deixar claro é que existe um poder por trás de cada língua que, muitas vezes, não o observamos porque já estamos acostumados a usá-la. Barthes diz que a linguagem é uma legislação e a língua é o seu código.


Podemos então entender que todo ser humano, seja de qualquer nacionalidade, possui linguagem. Nós somos seres que se comunicam por natureza, como podemos observar com a teoria do linguista Noam Chomsky que, em resumo, afirma que já nascemos com a linguagem, não a aprendemos, além de que possuímos uma Gramática Universal.


A partir disso, entendemos que a língua representa as variantes dentro dessa “legislação”, são os diferentes “códigos” que usamos para comunicar. Cada um de nós podemos escolher como queremos comunicar algo, porém cada código impõe um limite. A língua é, dentro de tudo, opressiva. Isso significa que, uma vez que escolhemos dizer algo de determinada forma, estamos excluindo tudo aquilo que não dissemos e isso é uma escolha pessoal que pode revelar muito de uma pessoa.


Barthes dá um exemplo com o uso do masculino e feminino e do uso dos pronomes (tu para informal e vós para formal). No caso, sou obrigada a dizer “a” flor e não “o” flor, em português não existe — oficialmente — uma estrutura neutra como em outras língua, um caso seria no inglês (it), mas isso se dá também em alemão e em francês. Outro exemplo são as palavras que escolhemos usar, eu posso dizer “bolacha” e não “biscoito”, a escolha de uma implica a exclusão da outra palavra, além de demonstrar, com uma simples palavra, um possível lugar de origem da pessoa.



Também podemos entender que não existem dois discursos iguais, cada um escolhe um modo de dizer a mesma coisa de acordo com a sua própria língua. Podemos pensar a partir da psicologia quando Lacan fala de alíngua (lalangue), uma língua própria do sujeito que contém aquilo que pode ser dito e o que não. Cada palavra é entendida e tomada de maneira diferente de acordo com a experiência, traumas e outros fatores que influenciam na vida da pessoa.


Agora que você já sabe a diferença entre língua e linguagem, e que cada pessoa se expressa de uma maneira diferentes através do poder do discurso. Como aplicar isso na narrativa e nos diálogos?


        Voltando aos pontos citados anteriormente, é muito importante conhecer a história do personagem, para compreender como as variações linguísticas o afeta. O autor tem que saber de onde essa persona veio, como ela é, o que ela gosta e como isso influencia no seu próprio vocabulário — mesmo que o escritor não vá fornecer todas as informações aos seus leitores.


- País de origem.




O português de Portugal não é o mesmo utilizado no Brasil e muito menos o utilizado em Moçambique. A mesma coisa acontece dentro de um país tão grande como o Brasil: um gaúcho fala diferente de um paraense, que se difere do paulista, do baiano, do mato-grossense e do pernambucano. Cada lugar possui a sua variação, por isso é muito importante deixar isso claro. Ao definir, você já sabe qual é o repertório de palavras que estará disponível para esse personagem.


- Elementos culturais + etnia.

Imaginamos que o seu personagem nasceu no Brasil. De qual estado ele é? Além de ser brasileiro, existe alguma influência cultural dos seus antepassados?


Cada região do nosso país é rico em diversidade. Isso significa que um personagem que nasceu no Norte do país não usará o mesmo vocabulário que uma pessoa do Sul. Outra coisa é a descendência desse personagem, seus avós podem ter sido japoneses, então dentro do seu vocabulário podem existir palavras da cultura ou elementos que não estão tão presentes no discurso de uma família com descendência alemã.


Se um personagem refere-se à sua avó como “nona”, não precisamos nem escrever que possui descendência italiana, esse detalhe, que resume toda uma árvore genealógica, estará resumida a uma palavra, algo que o leitor captará pelas entrelinhas do texto.


Outra maneira de demonstrar a relação do personagem com determinada cultura também é a falta desse vocabulário. Por exemplo, um personagem nordestino que se muda para São Paulo e se recusa a utilizar palavras que usou sua vida inteira, poderia apresentar  um conflito e diferentes motivos para essa recusa (como mudar a maneira de falar por preconceito por parte das pessoas que o rodeiam).

 

-  Idade.



A idade do personagem influencia muito nas referências que ele usa, nas palavras que escolhe e nos temas que conversa. Você não verá uma personagem de dez anos conversando sobre como foi difícil terminar a faculdade e encontrar um lugar para colocar silicone, da mesma forma que você não encontrará uma adulta dizendo que adora ir para a escolinha brincar com massinha (a menos que essas sejam as intenções do livro, uma ficção, outra realidade...). Você só deve ter muito cuidado para não exagerar nos estereótipos, por isso é importante ler e reler o texto, muitas vezes em voz alta, para ter certeza de que consegue imaginar uma pessoa real dizendo aquilo. Vale lembrar que muitos vocabulários se atualizam e ninguém fica para sempre cristalizado em uma lista de palavras específica, se você é um millennial tenho certeza que passou da expressão “boy magia” para a palavra “crush”.


- Gostos.

Os gostos determinam os assuntos das conversas dos seus personagens e através deles você também pode determinar o quanto ele sabe sobre um determinado assunto. Todos nós temos gostos diferentes e isso também influencia a maneira como falamos sobre determinadas coisas.


Uma pessoa viciada em chocolate, pode comentar curiosidades que demonstrem isso. Um personagem que gosta de viajar pode falar sobre aventuras e apresentar-se como alguém curioso. Em uma mesma atividade, podemos observar o grau de conhecimento, é diferente dizer “eu fiz o copywrite daquele post” para “eu escrevi uma descrição para o post”. Também é muito diferente dizer “eu sou médico” e “eu estudei medicina”, no primeiro caso podemos inferir que o personagem atua como médico, já o outro deixa uma dúvida, porque ele pode ter estudado medicina, mas pode ter deixado a faculdade ou não exerce a profissão ainda.

 

- Personalidade.




Uma pessoa tímida não se expressará da mesma maneira que uma pessoa extrovertida, da mesma forma que uma pessoa mesquinha não tratará as pessoas da mesma forma que uma pessoa humilde. As palavras que escolhemos e a maneira que descrevemos a forma de falar do personagem deve refletir a sua personalidade. Para personagens tímidos, as falas podem ser mais curtas, entrecortadas, com pausas e podemos utilizar indicações como: “falou baixo”, “murmurou”, “suspirou”; já para personagens extrovertidos podemos usar frases mais longas, indicar agitação como em: “disse gargalhando alto”, “gritou para todo mundo ouvir”. Uma pessoa com baixa autoestima pode pedir desculpas constantemente, enquanto uma pessoa egocêntrica se refere a ela mesma todo o tempo.


 - Gênero. 

            Se você se identifica com o gênero masculino, feminino ou não binário, estudos comprovam que existe uma tendência a se expressar de maneira diferente. As pessoas que se identificam com o gênero feminino, por exemplo, podem utilizar um vocabulário mais relacionado às emoções e às palavras no diminutivo, além de costumar dizer mais para explicar determinado assunto, entre outros aspectos. Já o gênero masculino pode se expressar de maneira mais inflexível, sendo mais direto na hora de falar, e não demonstrar tanta emotividade em seu discurso. É importante destacar que existe um amplo corpus de vocabulário tanto dentro do universo binário, quanto do LGBTQ+ que pode sofrer variações e que representa a realidade de cada um desses gêneros. Sendo assim é importante destacar que, dependendo de como a pessoa se identifica, ela pode ter um conjunto de vocabulário específico relacionado a essa identificação, a um certo padrão social e estereótipo cultural expressos em diferentes intensidadesDo mesmo modo, a pessoa pode se reconhecer com um determinado gênero e romper com a forma esperada desse gênero se expressar  seja esta ruptura consciente ou não


São todos esses pequenos detalhes fazem com que o seu personagem seja mais verossímil, tanto nos diálogos quanto na narrativa em primeira pessoa, ou nas descrições realizadas em terceira pessoa. A escolha de cada palavra, a forma que eles montam as frases e a maneira como eles dizem isso, podem indicar muito sobre as suas características, desde o lugar de onde nasceu até o grau de educação que chegou. Partindo sempre da ideia do “show don’t tell”, é preferível demonstrar através da narrativa, das descrições, dos diálogos e dos detalhes do que resumir em uma frase “ele era...”, “ela é...”.

 

Uma atividade curtinha para que você possa praticar essa análise através de uma frase e poder aplicar nas suas histórias:

- A partir do trecho abaixo, escreva tudo o que você pode inferir/imaginar sobre esse personagem.

 

Exemplo:

a) — Estive toda a noite corrigindo as atividades de português e as minhas costas doem. Bem que a minha obachan dizia que essa profissão era nobre, mas cansativa. O pior de tudo é que amanhã vamos fazer uma festa de despedida de um colega de trabalho e tenho que comprar biscoitos para levar.

 

Resposta: De acordo com a frase da personagem, podemos chegar à conclusão que ela é professora de português, pela palavra “obachan” sabemos que tem descendência japonesa, e que ela provavelmente pode viver no Rio porque usa “biscoito”.


Sua vez:

b) — Não acredito que o Carlos me bloqueou no Tiktok! Juro para você que fiquei chocada com essa atitude dele, tenho certeza que foi porque ontem eu não quis ir com ele até o shopping comprar roupa. Aff, eu tenho coisas mais importantes para fazer, como jogar tênis aqui na quadra do condomínio com as minhas amigas.

 

c) Eu me sentia sufocada no meio de tanta gente naquela balada, tentava falar, mas a minha voz saía por um fio, as pessoas não notavam a minha presença, mas eu não me importava muito com isso. Vi um menino se aproximar e o meu coração acelerou automaticamente ao perceber quem era, o ar saiu dos meus pulmões e meus olhos arregalaram, eu não podia acreditar que ele queria falar comigo! Minhas bochechas coraram instantaneamente, ele me cumprimentou com um beijo em cada bochecha e me entregou um copo de plástico com refrigerante dentro.

 

Deixe aqui nos comentários o que você pensa sobre esses personagens!

2 comentários:

  1. Na letra (b) acredito que o personagem seja menina, que gosta de esporte e não é patricinha dessas que gosta de passear em chopp center.
    Na letra (C) a personagem com certeza e uma menina timida que não curte balada e nem gosta de sair muito.

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  2. Na letra B, demostra que é uma mulher decidida, faz o que gosta e não pra agradar outra pessoa, ja o Carlos demonstra ser aquele garoto mimado que não sabe ouvir um não e ja se sente ofendido.
    Letra C, PERCEBE-SE QUE A GAROTA NÃO TEM COSTUME DE FREQUENTAR BALADAS, DEVIDO SE SENTIR DESCONFORTÁVEL NESSE AMBIENTE, PORÉM SE SURPREEENDE AO VER O SEU CRUSH SE APROXIMAR,POIS QUE ELE NÃO A NOTAVA.

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