Caro e gentil leitor,
Há algo empolgante e perigoso em escrever e receber uma carta.
Não importa se ela chega selada com cera, dobrada às pressas em um envelope gasto ou, de maneira tímida, entre dezenas de notificações no celular. Uma carta carrega muito mais do que palavras: ela traz consigo a dedicação e o tempo que alguém, em algum momento, reservou para escolher as melhores palavras para contar um segredo, falar sobre a vida, se despedir ou deixar transbordar no papel algum sentimento que precisava ser expresso.
Talvez seja exatamente por essa ideia de pausa, proximidade, intenção e uma pitadinha de curiosidade que os romances epistolares nunca tenham desaparecido completamente.
Ler um romance epistolar é como ouvir uma conversa alheia. Como estar em um lugar onde não deveríamos estar. Esse tipo de história é como uma cápsula do tempo. Um convite a novas descobertas a cada página.
Mas, afinal, o que é um romance epistolar?
O termo “epistolar” vem do latim epistolaris, que significa “relativo a cartas”. Portanto, um romance epistolar é uma narrativa construída, total ou parcialmente, por meio de documentos escritos pelos próprios personagens. Cartas são o exemplo mais conhecido, mas o formato pode incluir diários, bilhetes, telegramas, recortes de jornal ou qualquer outra forma de comunicação escrita.
Porém, à medida que a forma como nos comunicamos evoluiu, o mesmo aconteceu com o romance epistolar. Telegramas, e-mails, gravações de voz, mensagens de texto e outras formas de comunicação eletrônica têm sido utilizadas para criar narrativas que lembram o estilo found footage — recurso utilizado no cinema, principalmente em filmes de terror, em que a história é contada por meio de gravações supostamente reais que foram perdidas e depois recuperadas.
Ou seja, em vez de um narrador nos contar o que aconteceu, somos convidados a descobrir os acontecimentos através das palavras daqueles que estavam envolvidos neles. Porém, antes dos romances ficcionais, era comum a publicação de livros epistolares que reuniam cartas reais escritas por governantes e intelectuais de outrora.
Por que escolher contar uma história assim?
Ora, porque, na maioria das vezes, cartas revelam coisas que uma narração tradicional talvez escondesse ou não tivesse espaço para explorar. É dar ao leitor um acesso VIP às palavras privadas de alguém, aos seus sentimentos mais íntimos. Quando escrevemos uma carta, escolhemos o que contar e o que omitir. Podemos exagerar, suavizar, mentir e, sobretudo, tentar controlar a impressão que o destinatário terá de nós. É justamente essa possibilidade de revelar e esconder informações que torna a estrutura epistolar tão interessante: independentemente dos documentos utilizados para contar uma história, o formato permite criar uma sensação maior de intimidade, realismo e suspense, fazendo com que muitos autores recorram a ele para construir suas narrativas.
Isso torna o romance epistolar especialmente interessante para histórias sobre amor, amizade, segredos, conflitos e relações humanas.
Exemplo: Imagine uma história de amor na qual os protagonistas não conseguem conversar sobre aquilo que realmente sentem.
Em uma narrativa convencional, o autor poderia simplesmente nos mostrar seus pensamentos, intercalando os pontos de vista. Já no romance epistolar, porém, existe uma oportunidade interessante: eles precisam escolher o que dizer um ao outro. E essa escolha pode criar um conflito.
Uma personagem pode escrever uma carta e nunca enviá-la. Outra pode responder apenas a uma parte da carta que lhe foi entregue. Uma terceira pode encontrar uma correspondência que não deveria ter visto. Uma carta pode cair em mãos erradas. Pode desaparecer, ser falsificada. Chegar tarde demais…
Uma carta de amor, não é apenas uma declaração de sentimentos. É também um retrato de quem a escreveu.
- O que motivou a pessoa a escrever?
- O que essa pessoa tem coragem de dizer? E o que ela não consegue?
- Por que determinada palavra foi escolhida?
- Por que determinada palavra foi apagada?
- E, talvez mais importante: o que aconteceu entre uma carta e outra?
É aí que o gênero começa a brincar com o leitor, despertando sua curiosidade e fazendo-o imaginar como é a vida cotidiana das pessoas por trás daquelas palavras escritas. Afinal, estamos tendo acesso apenas a recortes, assim como acontece através do feed e dos vídeos curtos nas redes sociais.
Romances epistolares para conhecer e se inspirar

Carta à rainha louca, de Maria Valéria Rezende: Olinda, 1789. Isabel das Santas Virgens, presa no convento do Recolhimento da Conceição, escreve à rainha Maria I, conhecida como a Rainha Louca. Em suas cartas, ela, tida por muitos como também lunática, conta os destemperos cometidos pelos homens da Coroa – e por aqueles que galgaram tal posto – contra mulheres, escravizados e todos os que se encontravam mais vulneráveis. Por meio dos tormentos passados por ela e por sua senhora Blandina, nossa narradora expõe o pano de fundo da colonização brasileira e da situação da mulher que ousava desafiar.
A correspondente, de Virginia Evans: Mãe, avó, filha adotiva, mulher divorciada e aposentada após uma brilhante carreira no direito, Sybil van Antwerp desempenhou muitos papéis na vida. E algo sempre a acompanhou: a paixão por cartas. Elas dão sentido a seu mundo e a ajudam a entender seu lugar nele. Todos os dias, Sybil escreve a destinatários variados – o irmão, a melhor amiga, a diretora da faculdade de Letras, escritores como Joan Didion e Diana Gabaldon – e fala sobre o que a comove e a incomoda, o que a inspira e a entristece.
Flores Para Algernon, de Daniel Keyes: Com excesso de erros no início do romance, os relatos de Charlie revelam sua condição limitada, consequência de uma grave deficiência intelectual, que ao menos o mantém protegido dentro de um “mundo” particular – indiferente às gozações dos colegas de trabalho e intocado por tragédias familiares. Porém, ao participar de uma cirurgia revolucionária que aumenta o seu QI, ele não apenas se torna mais inteligente que os próprios médicos que o operaram, como também vira testemunha de uma nova realidade: ácida, crua e problemática. Se o conhecimento é uma benção, Daniel Keyes constrói um personagem complexo e intrigante, que questiona essa sorte e reflete sobre suas relações sociais e a própria existência. E tudo isso ao lado de Algernon, seu rato de estimação e a primeira cobaia bem-sucedida no processo cirúrgico.
A cor púrpura, de Alice Walker: Ambientado no Sul dos Estados Unidos, entre os anos 1900 e 1940, conta a história de Celie, mulher negra, pobre e semianalfabeta. Brutalizada desde a infância, a jovem foi estuprada pelo padrasto e forçada a se casar com Albert, um viúvo violento, pai de quatro filhos, que enxergava a esposa como uma serviçal e fazia dos sofrimentos físicos e morais sua rotina.
Durante trinta anos, Celie escreve cartas para Deus e para a irmã Nettie, missionária na África. Os textos têm uma linguagem peculiar, que assume cadência e ritmo próprios à medida que Celie cresce e passa a reunir experiências, amores e amigos.
A sociedade literária e a torta de casca de batata, de Mary Ann Shaffer e Annie Barrows: conta a história de Juliet Ashton, uma escritora em busca de um tema para seu próximo livro. Ela acaba encontrando-o na carta de um desconhecido de Guernsey, Dawsey Adams, que entra em contato com a jornalista para fazer uma consulta bibliográfica. Começa aí uma intensa troca de cartas a partir da qual é possível identificar o gosto literário de cada um e o impacto transformador que a guerra teve na vida de todos. As correspondências despertam o interesse de Juliet sobre a distante localidade e narram o envolvimento dos moradores no clube de leituras – a Sociedade Literária e a Torta de Casca de Batata –, além de servirem de ponto de partida para o próximo livro da escritora britânica.
Evidências de uma traição, de Taylor Jenkins Reid: Uma jovem desesperada no sul da Califórnia se senta para escrever uma carta para um homem que ela nunca conheceu — uma escolha que mudará sua vida para sempre. Meu coração te pertence, David. Mesmo sabendo que eu não te conheço…
Pouco a pouco, a correspondência entre Carrie Allsop e David Mayer revela os detalhes de um caso devastador entre seus cônjuges. Ao longo das cartas, eles confessam seus medos e compartilham sentimentos escondidos no fundo de suas almas, tentando decidir como seguir em frente.
O garoto está de volta, de Meg Cabot: Um escândalo traz de volta à pequena cidade natal, à família e ao primeiro amor uma estrela do golfe. Reed Stewart pensou que todos os problemas de cidade pequena — incluindo um coração partido — haviam ficado para trás quando ele abandonou a microscópica Bloomville, Indiana, há dez anos para se tornar um rico e famoso profissional do golfe. Até um post na internet ter ressuscitado todas as suas inseguranças de adolescente. Becky Flowers investiu tempo e recursos para se tornar uma bem-sucedida profissional no ramo de realocação de idosos. Mas ela trabalhou ainda mais duro para esquecer que Reed Stewart sequer existia. Ela não tinha, absolutamente, a menor intenção de revê-lo, agora que ele voltou... até a família do garoto a contratar para ajudar na mudança dos pais.
Os E-mails De Holly, de Holly Denham: A caixa de mensagens de Holly Denham é uma fonte inesgotável de dramas e situações divertidíssimas. É através delas que o leitor mergulha na frenética rotina da protagonista, principalmente pelos e-mails trocados com dois amigos: Jason, o gerente de um hotel chique que sabe tudo sobre celebridades e Aisha, que tem uma vida sexual de dar inveja. Holly é contratada para trabalhar de recepcionista num banco de investimentos londrino, um lugar muito movimentado, onde jogar conversa fora é estritamente proibido. O primeiro dia no emprego não é lá muito promissor: ela não dá conta de suas inúmeras tarefas, se depara com colegas de trabalho nada amigáveis e, para completar, encontra uma metida ex-amiga dos tempos de escola que se transformou em uma profissional bem-sucedida – e faz questão de lembrá-la disso o tempo todo. Cansada da rotina, a jovem recepcionista recorre à sua caixa de e-mail para aliviar a tensão. No centro dos principais assuntos estão as intromissões de sua mãe, os dilemas de seus irmãos e a descoberta da internet pela sua avó, que insiste em inscrevê-la em sites de relacionamentos e promoções online. Quando Holly as coisas parecem começar a entrar nos eixos, Holly começa um relacionamento com James, que também é funcionário do banco. Como uma garota trabalhadora irá conseguir aliar uma confusa vida amorosa com uma profissão tão exigente, lidar com amigos loucos, uma família disfuncional e colegas de trabalho fofoqueiros? Sem contar que Holly está escondendo um grande segredo de todo mundo...
Drácula, de Bram Stoker: Aqui, o advogado Jonathan Harker viaja até a Transilvânia para tratar de negócios com o conde Drácula – figura temida pelos moradores da região. Ao longo dos acontecimentos registrados no diário de Harker, sua estadia ganha um aspecto cada vez mais assustador; e, junto a recortes de jornal, troca de cartas e telegramas, além de registros em outros diários, a obra descortina a sombria e assustadora essência dos vampiros, amplamente conhecida na modernidade.
Frankenstein, de Mary Shelley: Nascido do gênio e da ambição, um ser sem nome abre os olhos para um mundo que o odeia por sua aparência. Abandonado por seu criador, ele anseia por compaixão e amor, mas encontra apenas medo e violência. Cada porta fechada e cada ato de crueldade alimentam uma escuridão crescente em sua alma, transformando seu desejo por aceitação em uma sede de vingança implacável contra o homem que lhe deu uma vida de solidão. Uma saga trágica sobre a linha tênue que separa a humanidade da monstruosidade, em uma edição luxuosa e ilustrada.
Agora que vocês já conhecem um pouco mais sobre o assunto, fica o convite: que tal se inspirar nesse estilo e criar uma nova história explorando esse formato?
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